À Dona Cenira

Era uma cozinha bege, escura, porque não tinha janelas. Estreita, sem jeito, mas ela se virava muito bem dentro dela. Eu era muito curiosa, e ela não tinha lá muita paciência, mas sempre me ajeitava em um banquinho, descascava uma cenoura com o miolo bem alaranjado, e eu comia enquanto brincava de ser coelho. Mas tinha que ficar muito quietinha. “A cozinha é um lugar perigoso”, dizia ela, “você pode se queimar ou se cortar, então tem que ficar sentadinha aí”. Eu obedecia, a maior parte do tempo, porque gostava de ver o que ela fazia.
Como lavava o arroz, “porque carioca faz arroz é escorrido, muito mais fácil”, e depois jogava em uma panela velha com água fervendo. Como descascava tantos, tantos legumes,  e como eu gostava de assistir a destreza de suas mãos morenas, calejadas e hábeis de tanto serviço doméstico feito na vida, pra família e pros outros. Ela sempre me contava várias das suas histórias, e eu gostava tanto de ouvi-las. Como as madrugadas que trabalhou em uma casa de família em um bairro nobre do Rio de Janeiro, fazendo petiscos pro filho do patrão, que levava os amigos pra jogar baralho durante a madrugada inteira. Eles iam acordá-la no quarto. “Mas a gente não reclamava, minha filha, porque eles avisavam sobre isso antes da gente pegar o serviço”. Ah, vó, ainda bem que as leis trabalhistas são outras! Ou da outra vez que, recém-chegada na capital, foi parar em um terreiro de candomblé, e em uma roda de trabalho, tinha que pegar uma corda e amarrar um nó pensando em alguém que não gostava. Mas ela não desgostava de ninguém! Acabou dando o nó mesmo assim. Resultado: “amarrei o anjo da guarda, minha filha!” E chorou dias a fio sem saber porque. Gostava de contar também, com orgulho, sobre como tinha se virado durante o período de pobreza, que nunca passaram fome porque ela economizava cada centavo e todo saco de comida que tinha em casa. “Certa feita”, diria ela, “o irmão de seu avô apareceu lá em casa com toda a família para almoçar. Era sempre assim, no dia do pagamento dele, ele gastava tudo, minha filha! Mandava comprar pernil, carne, frango, fazia aquele banquete. No resto do mês, não tinha o que comer, porque ganhava pouco. E eu tinha que me virar pra dar conta daquele tanto de gente, porque não podia fazer essa desfeita”. E ela falava de suas artimanhas, como, naquele dia, tinha feito um pacote de macarrão, desfiado a carne assada que antes só dava pra quatro e colocado um monte de tomate pra render a carne e fazer um monte de molho pro macarrão. Todo mundo comeu. Se refestelou! “No fim, minha filha, ele ainda olhou pra mim e disse que achava que a gente era rico!”. E a senhora gargalhava gostoso…  E eu ria junto, sem entender bem, mas gravando as histórias na memória sem perceber.

Era dali que também saíam os docinhos de aniversário. Fazer em casa, afinal, é a melhor economia que existe! “E dinheiro vale muito, minha filha!”, dizia, sabiamente. Vovó enrolava os brigadeiros e beijinhos, fritava coxinha, e assava o melhor bolo de aniversário do mundo: seu rocambole recheado com brigadeiro. Eu era uma criança obcecada. E ela reclamava porque só queria esse. Mas sempre fazia pra me agradar.

De sua frigideira saiu todo arroz com ovo e purê de batata que uma menina é capaz de comer. Porque eu não gostava de frango. Nem de peixe. E ela fazia um pratão pra compensar. “Porque você é tão magrinha, minha filha!”. E Cremogema. Suflê de legumes – que, claro, tinha outro nome. Macarrão com muito ketchup (que ela botava água pra render). Mas nunca, absolutamente, ninguém saiu com fome. Mas, com certeza, 90% saía empanturrado.

Enquanto mexia nas panelas, e conversava com as visitas, porque ela sempre tinha que passar um café, ou fazer um suco de maracujá, ou assar o pão que guardava no congelador para uma eventualidade, todo mundo se espantava quando ela dizia a idade. Ela sorria, embevecida, e dizia que é porque comia verdura e andava reta. E hoje eu penso: sem anti-age, trabalhando uma parte da vida na roça, pegando sol sem protetor. É, vó, você tá certa.

Foi naquela cozinha que a minha avó foi construída pra mim. Ali, ela era a dona do mundo, capaz de coordenar tudo com perfeição. Foi capaz de alimentar duas gerações de sua família. De comida gostosa, de histórias, de alegria, de sonhos, de amor. Apesar de nem gostar de cozinhar. E isso mostra o quanto ela se doou pra gente. Como ela é linda.

E, hoje, a despeito de parecer apagada pelo Alzheimer, pelas confusões sobre o tempo, achei que era válido lembrar de quem ela é. Pra ela. Pra nós. Porque uma grande mulher como essa é incapaz de ser esquecida.

Obrigada por ser quem você é, vó.

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Uma promessa de ano novo

No final de agosto.

Talvez sejam os 24. Que eu nunca lembro que são 24. Mas dizem por aí que idade é sabedoria… um pouco mais de paciência, persistência, calma e não sei mais o quê.

No dia do tal ano novo, eu estava sozinha em uma casa de praia, com as minhas duas cachorras, um livro e o silêncio da distância da praia e dos fogos de artifício. Eu me senti bem. Pela desobrigação de pular sete ondinhas, dar o primeiro beijo de 2011, achar que tudo ia ser melhor e colocar um sorriso no rosto. Porque o relógio anunciava um minuto a mais. Eu tenho dificuldade de lidar com rituais de passagem. Eu sou ranzinza, do alto dos meus poucos 24 anos. O fato é que, assim, eu não me prometi nada. A despeito de estar usando uma calcinha amarela pra trazer dinheiro.

Eu lembrei de outros anos novos. Da vez em que, quando ainda não tinha sido beijada, comi 7 uvas para fazer 7 pedidos e guardar as 7 sementes na carteira durante o resto do ano. Junto com uma prima e as amigas mais velhas dela, todas riram dos meus olhos pedindo um namoradinho e uma beijoca. Me senti tola com a lembrança. Mas a gente não pode negar o que foi, certo? Pelo menos nisso eu acredito. Em outro ano, eu estava escrevendo no meu diário. Raivosa. Chateada com a incompreensão da minha família. Marquei a folha com tanta força que rasguei -  e então percebi a intensidade que o meu próprio drama tem pra mim. E mudou? Anos depois, cá estou eu, chorando num turno e saltitando no outro. Incoerência sentimental é modo de vida.

E toda essa divagação pra dizer que, em agosto, eu achei que merecia uma promessa. Eu me devia uma promessa. E uma promessa pro mundo. Eu gosto de dar um tom grandioso pras minhas coisas. Sim, sim.

A verdade é que eu fiz Ciências Sociais. Convivi com tanta gente ativista, li tantas coisas desconstruindo o mundo e as regras, ao ponto de naturalizar ideias que, oi, filhota? Não foram naturalizadas. A despeito de ser considerada reacionária pelos coleguinhas hardcore, eu tenho uma dificuldade imensa de lidar com gente reacionária. Baseada no currículo básico: gente machista e/ou racista e/ou que lê Veja e acredita e/ou homofóbica e/ou acredita numa sociedade meritocrática.

Mas, veja bem, esse é, deixa eu pensar em porcentagens, 80% do mundo. E a gente tem que lidar com essas pessoas o tempo inteiro. Eu, particularmente, encrespo. Encrespo de um jeito horrível. Eu sou agressiva, é a verdade. Não dou conta de discutir, desisto no início. Namorido, uma das pessoas mais diplomáticas que eu conheço, sempre tenta dar uma de advogado do diabo, com seus “Você tem que entender que as pessoas tiveram experiências diferentes da sua”. Mas eu respondo logo, como uma criança emburrada: “Eu não tenho que entender nada”. E não quero lidar com o mundo. De saída.

Taisinha é uma implicante, já diria minha mãe. Ou minha tia. Ou qualquer outra pessoa que me conheça muito. É mais fácil ser assim, afinal. É todo mundo chato e eu quero ir pra casa. Mas não pode ser tudo do jeito que a gente quer, certo? Agora eu trabalho. Com sete pessoas, numa sala. Durante 8 horas por dia. Pessoas que pensam de um jeito completamente diferente do meu jeito. Do jeito que eu odeio, na verdade. E, claro, eu já tive pequenas discussões sobre assuntos da vida que me são caros. Naturais. É mais fácil tentar fugir. Eu tenho fones de ouvido e as rádios da internet. Mas isso não funciona 40 horas por semana. Assim, me corrôo. Fico doente, mal-humorada, tenho dores no estômago e nas costas. Porque somatizar é a lei.

A promessa ano novo, de vida é  ser MAIS BRANDA. Mais paciente, mais tolerante, talvez até mais calma. Afinal, eu não tenho mais 14 anos.

É diferente de aceitar. É lidar de modo diferente. É respirar um pouco antes de explodir, de discordar. É tratar o mundo de outro modo.

E a gente vai se encontrando no meio do caminho

O mundo

Eduardo Galeano

Um homem da aldeia de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir aos céus. Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas.
  —  O mundo é isso — revelou —.
Um montão de gente, um mar de  fogueirinhas. Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo.

Pollyanna v.2011

E se no meio de uma briga a sua tia te chama de revoltada, eu acho que é sinal de jovialidade da sua pessoa.

2010

Foi assim. E tem sido bom.

O ano mais “casca” e intelectual de todos. Agora eu tô mudando de casca… quem sabe mude de ideia, também.

Se eu virar pós-moderna

… será que ainda vou gostar de mim?

Aliás, se eu tô pensando nisso, é porque já era.

Eu nasci na época errada

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, diz o rifão. Nem verde e nem maduro demais. O fruto deve ser comido assim que chega ao estado de maturação. (…) A fervura faz-lhes perder a vitalidade das vitaminas. É por isso que se devem açucarar bastante os doces em calda (compota), para compensar as propriedades perdidas com a cozedura.

Texto da edição de 1944 do livro de culinária Dona Benta

E a gente tem que aguentar toda essa baboseira “zero açúcar”.

Sobre a mesa

Um telefone sem fio irritado por estar fora de sua base. Sempre imagino um senhorzinho temperamental e burocrático quando observo seus reclames sonoros. Do outro lado, uma fruteira improvisada, um cacho de bananas empretecendo, resignado, e duas maçãs bonachonas. Elas sabem que viram bolo antes das bananas, pela preferência da cozinheira. E dão aquele meio sorrisinho de pretensão. Os restos do café da manhã também estão lá. Três pratos diferentes, um resto de pão torrado e cascas de melão. Dão aquele cheiro cítrico gostoso no ar… ao lado do copo de suco de laranja. Industrializado. A moça acha que fazer suco de laranja dá muito trabalho. A mini-samambaia parece feliz. Molhadinha, verdinha, enroscadinha. Coisa impossível de acontecer a alguns meses atrás. Mas eis que algumas manias virginianas são contagiosas. Um pendrive esquecido, um grampo de cabelo, um roupão jogado, um notebook ligado.

É uma mesa grande. 2 metros por 1. Feita de portas velhas de armário, comprada por uma pechincha, ainda veio com dois bancos. Jeito de se sentir na roça dentro da sala de uma kitnet de 40m². Ainda é muito. Sob a mesa, uma toalha estampada, sempre meio limpa e meio suja.

E à sua frente, uma moçoila num pijama improvisado, de casacos e meias, procrastinando a leitura de um texto vindo escrever no blog. Porque acordou assim, literária.

Uruguay e otras cositas más

Cheguei de casaco, num dia el sollindo, depois de um breve voo sobre campos verdes de cerquinhas brancas e casas de estilo europeu. Na bolsa, chocolatinhos do freeshop. O primeiro nativo que vi tinha bigode de morsa e uma feição de burocrata. Foi ele quem carimbou meu papel da imigração. A gente tem essa crença de que portunhol é mais do que suficiente. De primeira, não consegui nem empreender um diálogo com a moça uruguaia do outro freeshop. E ela só queria meu “documento”.

Mas aí veio o Fiat 147 e a família da boa amiga. As coisas ficaram melhores. Apesar da brisa que anunciava os 11ºC. Especialmente depois de uma tortinha de massa folhada [aliás, massa folhada uruguaia é de Deus]. E de meias. As ruas são lindas. Muitas árvores e casas antiguérrimas. De alguma maneira, me lembrou São Paulo. Queria tirar foto de cada sacada, todos os detalhes rococós. E do pessoal com seus mates. Porque, é verdade, todos tomam. E toda hora. A plaquinha no ônibus avisando que é proibido tomar mate ali dentro não é por nada. O povo até burla o negócio. Mas achei bem engraçado.

Na rambla, estava o mar. Que não é mar. Mas é um rio grandão. Até Yemanjá dá seu ar da graça por lá. E aí comemos torta frita. E pastel de doce de leite. E o melhor de todos: churros de dulce de leche. Num trailler que parecia bastante reprovável. Mas, como é comum nesses lugares, foram os melhores churros que já comi na minha vida – batendo até memórias infantis dos churros na porta do colégio Pernalonga. Aliás, vale dizer, se você é paranóico com higiene e comida, evite o Uruguai. E a Argentina. Talvez toda a América Latina. Essa história de usar luvas e touquinhas é coisa de brasileiro paranóico. Qual o problema de pegar seu troco, coçar a cabeça e entregar seu churro com a mesma mão? Não seja enjoado. Vale a pena.

Digamos que eu fui atração. Me senti como os gringos de Salvador. Negra, cabelos crespos, alta, usando roupas estampadas e falando português. No mínimo, caricato. De início, me incomodei… mas aí a gente se acostuma. E acha até graça. As pessoas são ótimas. Cada vez que precisávamos de uma informação, todos nos ajudavam. Elas sorriem. Dão bom dia. E você repara ainda mais se é um brasiliense carente. E, tadã. Cá está uma, que abria um sorrisão pra todos aqueles que eram cordiais.

Tristán Narvaja é uma experiência de vida. Coelhinhos e cachorrinhos ao lado de alfaces e morangos, cacarecos de todos os tipos mais à frente, antiquários, talheres antigos (não resisti à uma faca de bolo), jóias, fitas k7, roupas. É uma mistura de 25 de março, com Feira do Paraguai, Feira do Guará e do Rolo. Eu queria morar lá. Mas tínhamos que correr pra comer um ravióli uruguaio feito pela avó Muguruza, que tem ares italianos. Queria trazer todas aquelas massas frescas e deliciosas pra casa. Aliás, os presuntos e queijos também. Mais tarde, me apaixonei pelos bizcochos. Com muito doce de leite que, afinal, também é o melhor de todos.

Punta del Este é, no mínimo, linda e cômica. E no frio se desnuda. Fui à praia de cachecol pela primeira vez. É engraçado ver as grandes construções, o Cafonrad, os preços absurdos e muitas lojas fechadas porque é inverno. Mas. caramba, é uma das praias mais lindas, mesmo. E tem leões marinhos goooordos e dorminhocos. E a Casapueblo.

punta ballena, por mim mesma

Tirei um milhão de fotos. Passeamos nas livrarias de Montevidéu. Livro de comida francesa tinha, mas livro de comida uruguaia só um. Com as piores fotos já tiradas. Mas um “Alimentación e Cultura” veio pra casa. Comi a maior milanesa do mundo. Duas vezes, em dois lugares diferentes. E ver limão siciliano ser espremido como o nosso tahiti foi um pouco estranho. Um sentimento maternal quase tomou conta de mim. Mas passou. :P

Dancei Ivete Sangalo numa boatinha. Aparentemente, sertanejo e funk também são muito famosos por lá. Ouvi “Mila” em espanhol – a risada foi incontrolável. Teve risada em hora imprópria, mas depois veio o candombe e eu nem liguei mais. Sentei na grama, dei as mãos e participei até do ritual antropológico. Boa mocinha.

O Fórum não foi lá essas coisas. Discussões lugar comum demais, desorganização, atraso. Mas foi bom conhecer gente da Colômbia, Chile, México e me sentir um pouco mais parte da América Latina. Sempre fico com a impressão de que somos nós, brasileiros, que estamos à parte. O que não tem a ver apenas com a língua. E lá, me senti integrada. Apesar da imensa dificuldade [talvez um pouco de resistência] de entender o português.

Saí com aquela sensação clichê.

“Como el Uruguay, no hay”. E me sentindo um cadinho cosmopolita. :)

I’m alive, vivo, muito vivo

I’m alive, i’m alive.

E cinco meses dão espaço pra gente viver, viu?

Agora tenho cabelos mais curtos e enrolados. Financiamento miserável do governo pra estudar, e estudando como jamais se viu. Mais vestidos no armário, plantas na varanda e menos bichos em casa – Elvis sumiu não morreu. Mais quadros na parede, outros livros na estante, novas fotografias. Outros planos, mais confusões e novas ojerizas também – aula de cursinho, nhééé. Menos grilhões, mais responsabilidades. E lá se foram 7 anos de blog, entre idas e vindas. Mais taças de suco de vinho integral, mais caipirinhas e doses de tequila. Novas coisas no fogão lufa-lufa, nas panelas que transbordam e na pedra pra pão. Uns quilinhos a mais, uns quilinhos a menos. Mas, definitivamente, mais legumes e frutas, menos carne – de maneira não tão intencional. E mais magia na cozinha. Porque não?

A vida segue. Às vezes mais, às vezes menos. Mas segue…

Socióloga / concursanda / mestranda

Ou, como fazer tudo ao mesmo tempo agora. Ou, como não fazer nada quando você tem que fazer tudo ao mesmo tempo agora. Ou, como lidar com as frustrações e continuar mantendo a motivação. Ou, como colocar a vida no automático e seguir em frente.

Ou como não vir ao blog pra não ter que pensar.

Quase isso

Ah, Laerte. É um jeito quase sutil de mostrar o que é doloroso.

E só

Ao meu avô, seu Raimundo

Deus olhou e disse: ”vai, filho, ser um dos homens mais honestos que esse mundo já viu”. E ele foi, ainda com a promessa de ser um moreno bonito e corpulento.

No plano terreno, era o filho caçula de uma família de classe média baixa do Rio de Janeiro. As fotos mostram como era paparicado exaustivamente pelas irmãs e tias, que se preocupariam com ele durante toda a vida. Cresceu um menino tímido, de grande coração, um pouco inseguro, e de gênio forte - assim como grande parte dos pequenos mimados. Sua personalidade e aparência poderiam tornar-lhe um músico do jazz ou do samba em outra família, mas a necessidade do sustento, a retidão e o Brasil dos anos 40 permitiu que se tornasse um operário numa fábrica de refinamento de açúcar. Ganhava seu salário, ajudava em casa e permitia-se fumar e beber algumas vezes, com a turma de amigos.  Havia algumas mocinhas aqui e ali, quando suas paixões platônicas eram alimentadas de realidade, e estas que tinham de lidar com a reprovação frequente das mulheres que haviam lhe criado. Mas nada de tão sério, ele diria.

Era uma grande pessoa. E quando conheceu a moça do interior que trabalhava em casa de família, não conseguiu mais parar de pensar nela. Sabia que Cenira era uma solteira já quase balzaquiana, coisa preocupante pra época, mas era tão viva, tão sorridente e tão bela. Conheceu-a em uma festa na Baixada, acompanhada de amigos e amigas, usando um casaco de pele que o fez pensar que se tratava de uma moça de classe mais alta. Enquanto percebia seu interesse, ela achava graça de tudo, do moço com aquele jeito retraído e um pouco formal. E o recusou de início, pois seu coração pertencia a outro. Mas tratava-se de um cafajeste, e não demorou muito para que se decepcionasse e passasse a aceitar os cortejos do moço. Era um bom partido, de coração grande e muito honesto, e, com o passar dos anos, ela aprenderia a amá-lo.

A notícia do casamento foi um rebuliço. As mulheres da família protestaram, afinal de contas, o pequeno não poderia casar-se com uma interiorana mais velha. E ainda diziam por aí que ela era metida com macumba! Inaceitável. Mas, Raimundo bateu o pé. Casaram-se no civil numa sexta-feira. Quis levar a noiva no mesmo dia para o barracão que morariam, mas não é que Cenira era religiosa? Teve de esperar para o dia seguinte, depois da benção do padre numa Igreja católica da cidade. E começariam uma longa vida juntos.

Pesarosamente, um pouco antes do nascimento da primeira filha, ele apresentaria os sinais dos primeiros problemas nos olhos. As fotografias mostram a grossura da lente de seus óculos, e a situação apenas piorava. Impedia-o de trabalhar. A fé de sua mulher resultou então numa promessa a Santa Luzia, que seria atendida, o que acabou tornando a primogênita Ana Luzia. Era uma época de dinheiro curto na casa simples, e Cenira havia deixado de trabalhar após o casamento. Não tinham dinheiro suficiente, e do alto do machismo dos anos 50, Raimundo sempre lhe diria: “Mulher minha não trabalha!”. Ninguém saberia dizer se ele algum dia percebeu que ela costurava pra fora, escondida, para garantir que não faltasse comida na mesa.

Apesar da pobreza em que viviam, a honestidade sempre permaneceu ao seu lado. Em uma ocasião, teve de ir ao banco retirar algum dinheiro. Quando já estava no trem, percebeu que o funcionário havia lhe dado duzentos cruzeiros a mais do que o devido. Não titubeou. Desceu do trem e voltou ao banco, para devolver a quantia que não lhe pertencia. O caixa, incrédulo, agradeceu ao senhor, enquanto ele contava as moedas para pegar o trem de volta pra casa.

Com o tempo, outra filha nascia. Ele batalhava para manter a vida e a família, entre enchentes que encharcavam o barraco, o clima de uma ditadura latino-americana e uma dosezinha no fim de semana. E porque não um samba com a nega? Mas logo enciumava e voltava pra casa. Levava a vida. As duas Anas cresciam fortes e determinadas, e se orgulhava de vê-las assim, embora não soubesse como demonstrar. Não era de muitos afetos. Mas pensava que elas talvez chegassem onde ele não tinha chegado. Não enxergava a grande pessoa que era, e como isso era parte delas, também.

Em outra ocasião, estava em um mercado pagando as compras quando o estabelecimento foi assaltado. No pânico, todos os compradores saíram correndo, inclusive ele. Mas não foi longe. Esperou com as sacolas numa farmácia na esquina, e quando tudo se acalmou e os ladrões foram embora, voltou ao mercado. E pagou a soma que devia pelos gêneros comprados.

Não demorou para que viesse a velhice, depois do casamento da primogênita e da mudança de parte da família pra Bahia. Reclamava do corpo. Mas, sabia que era o relógio da vida, e que não há como voltar os ponteiros. A esperança da renovação encheu seu peito ao vir a primeira netinha Sant’Anna. Não queria perder a chance de vê-la crescer,  e não hesitou em mudar-se da cidade maravilhosa para uma pequena cidadezinha no interior da Bahia, calorenta e empoeirada pra estar junto dela. Parece que sabia que o câncer o levaria de volta alguns meses depois.

Vinte e dois anos mais tarde, estaria a netinha junto do túmulo de azulejos azuis, depositando flores. E emocionada com as palavras na lápide:  “Saudades da esposa, das filhas e da neta”.

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Obrigada, vô, por ter me amado tanto. Eu amo você e todas essas lembranças boas que deixou na memória das pessoas que te conheceram.

Ahá!

Será que uma mestranda pode ter um blog, gentem? :D
Vamos ver, vamos ver!
Quando eu acho que já deu pra mim essa coisa de ciências sociais, vem o mundo e me mostra que non! Ele sempre me mostra isso.

Sobre o agora

Ó, dá uma preguiça de vir aqui contar sobre todas as coisas. A libriana que mora em mim anda cansada da canceriana e de todos os seus planos e sonhos. Que venham logo as realizações, de uma vez. Mas ainda não consegue lidar com a indecisão que é inerente a sua personalidade.

Enquanto isso, vou atirando pra todos os lados, mas ainda não vi nada de muito interessante cair. E assisto o ano passar, as pessoas passarem, as coisas mudarem. E vou me sentindo alguém que tanto se mexe, que não sai do lugar.

Sobre o agora? O agora é só amanhã.

Conversa de botas batidas?

Eu estava disposta, até. Disposta a largar dessa vida ingrata, por enquanto. Mas foi ele quem disse.

- Dentro dos pontos que eu enxergo que uma monografia deveria cumprir, você bateu todos, de longe. É um trabalho muito bem encadeado, a maneira que você abordou os pontos da identidade, a memória, a alimentação e a mercadoria. Escreve muito bem, é objetiva, não tem nada de enrolação na sua monografia.  E isso não foi escrito no Brasil, acredite. Você descobriu um filão de estudo. Deveria permanecer, dá uma dissertação de mestrado linda, tenha certeza. Dá até pra fazer campo lá em Salvador.

Conversa de botas batidas, nada. Bó tentar o mestrado, então. :)

Ah!

Eu já apresentei pra vocês a minha neguinha? A irmã preta de Hi?

Dendê

 É a Dendê, gente. É uma scottish terrier que come as paredes do meu apartamento, as portas do armário, ataca os pombos, morre por um pedacinho de banana, não pode ver um pedaço de papelão, caça roedores (os hamsters agora moram em prateleiras), nunca se cansa e faz a cara mais linda do mundo quando eu chego do trabalho!

Diplomada

“E eu que nunca fui assim muito de ganhar, junto as mãos ao meu redor e faço o melhor que sou capaz só pra viver em paz!”

formanda

Nasceu!

Depois de longos seis meses, 213545642 textos lidos, 3 fichados, 4 bordoadas no trabalho de campo, várias chateações na faculdade, 2 computadores pifados, 50 brigas com a ASUS, 10 noites dormindo três horas, 13464231354 ataques nervosos, 2856986526 momentos de apatia e 241340215646 horas de desespero completo, NASCEU!

De parto normal, com 93 páginas, taí, pro mundo! Com direito a Carmen Miranda e cinco páginas de bibliografia! Agora é ver se o orientador vai gostar. :)

E a formatura é daqui a quase uma semana, babes. E vai ter Michael Jackson, porque o cara inventou de morrer justo no semestre em que eu me formo. Eu não mereço, mas é isso aí. No final das contas, eu tô topando tudo pelo canudo a essa altura do campeonato! Quem sabe rola até uma dancinha taisante.

Felicidade e realização é isso! E vamos deixar pra pensar no futuro depois da colação!

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