La cucaracha

Depois de dois anos em Brasília, confesso que tive o prazer de conhecer poucas baratas brasilienses. As baratas soteropolitanas sempre foram bastante sociáveis comigo, principalmente as voadorascascudasasquerosasaterrorizantes, fato este que acabou provocando uma série de ataques histéricos e vergonhosos. Em Brasília, no entanto, parece que deram uma certa trégua no plano internacional de ataque à minha humilde pessoa. Desconfio que por um motivo maior, talvez porque estejam arquitetando um plano ainda mais grandioso, envolvendo um milhão de baratas e uma casa fechada, mas não vamos falar sobre isso pra eu não parecer uma louca paranóica – com se já não fosse suficiente se pelar de medo de um bichinho de, no máximo, quinze doze centímetros.

Porém, numa bela noite de sábado, elas resolveram tocar o terror mais uma vez. Enviaram uma agente bem treinada pra me lembrar quem é que manda na parada.

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Estava a menina deitada na cama, entretida com algum joguinho bobo recém-baixado da internet. Era daqueles sábados caseiros, quando a casa parece o melhor lugar do mundo e o resto das companhias discorda disso. E você acaba sozinha em casa. Mas quem precisa de gente quando você tem o Cradle of Rome e precisa passar de umas 60 fases pra ganhar? Nobody. Ainda mais quando rola um salgadinho e um resto de suco de maracujá do almoço na geladeira. O problema é que aquele ser malévolo preparando-se para voar pra dentro da kitnet também sabia disso.

Foi quando a moçoila escutou um barulho no saco plástico atrás da cortina. Lembrando dos hamsters dentro de suas gaiolas, pensou que talvez um deles tivesse alcançado a liberdade e estivesse passeando por ali. Com todo carinho, ela abandonou seu joguinho e foi até a janela, resgatá-lo. E foi com desprazer que ela descobriu que aquele inseto de quatro seis patas e duas antenas nada tinha de hamster. E o escândalo tornou-se inevitável.

Porém, enquanto gritava, ela já pensava no que fazer pra fugir daquele animal que planejava o seu assassinato – afinal, gato escaldado tem medo de água fria! E, com pesar, percebeu que suas alternativas eram bem mais limitadas do que das outras vezes. Agora ela não morava mais em um apartamento de três quartos, três banheiros, uma cozinha e uma sala, cheio de portas e esconderijos. E sem o cachorro para salvá-la nas horas mais difíceis, como outrora. Ela estava em uma kitnet, com um cômodo e apenas uma porta no banheiro, que era sanfonada – com frestas em cima e embaixo, grandes suficientemente para passar todo o grupo de espionagem das baratas. Ninguém iria ouvi-la gritar por socorro e agonizar durante o ataque quase inevitável, muito menos resgatá-la! Sair de casa também não era uma opção, pois ela vestia um traje muito inapropriado pra sair correndo mundo afora (é, a pressão social foi mais forte do que o apelo do perigo!).

Diante de tudo isso, a única solução era correr pro banheiro de porta furada. Então, pernas pra quê te quero! Correu os 2,5 metros que lhe separavam do banheiro e, com uma rapidez ainda mais impressionante, tapou a fresta inferior da porta com um pano! E, no interior do banheiro, rezou pra que a barata não fosse radical e escalasse grandes alturas. Percebendo o perigo do ralo também, borrifou o Rayd preto que ficava guardado no banheiro – o que não foi a melhor idéia num cubículo de 2m². Mas ela prefereria morrer envenenada a deixar qualquer barata chegar perto dela. ¬¬

O fato é que a convicção vai morrendo depois de quarenta e cinco minutos de confinamento no nada, um leve ataque claustrofóbico e uma tosse insistente por causa das cinquenta mil borrifadas de inseticida no ralo. E, num arroubo desesperado corajoso ela resolveu… tadááá… resgatar o notebook pra lhe fazer companhia! Vocês acharam que ela ia matar a barata e mostrar a supremacia do ser humano diante da barata? Tolinhos! ¬¬ Mas, então! Correndo o mais rápido que podia, pegou o notebook em cima da cama, evitando olhar pra trás da cortina, e voltou no outro pé pra dentro do banheiro. No meio do caminho, pensou que também seria interessante pegar o celular e pedir por socorro e, por sorte, ele estava por perto também.

Ao voltar pro banheiro, ligou pro namorado vir resgatá-la, e relatou a situação insalubre que estava vivendo naquele momento, dando todo o ar dramático para que ele se compadecesse. Ele riu e não acreditou. Chegou só duas horas depois. E lá estava ela, suada e de olhinhos vidrados ora na porta, ora no jogo. E eu tenho certeza que ele quis chamá-la de louca e levá-la ao terapeuta. Mas ficou com tanta pena que só foi procurar a barata, pra acabar com aquele tormento.

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E é claro que ele não achou a barata. Elas são treinadas, rapaz. ¬¬

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Da velha série considerações taisantes

– Nada como cabelos relaxados e curtos pra te fazerem feliz numa manhã seca de segunda-feira. – Não importa o quão exorbitante vem a sua fatura de cartão de crédito, sempre vão caber mais 30 reais e o novo Cd do Coldplay (lindo!). – Ok, acho que duas buzinadas/dia pode ser considerado um indíce normal, dado o grau mundial elevado de motoristas que liberam seu estresse no trânsito. Onde foram parar os fundamentos da direção defensiva? – É mau que seus irmãos pequenos tenham medo de você? Eu não acho de todo mau. u.u Ok, pra livrar minha consciência acabei comprando presentes. – Às vezes eu acho que meus sonhos são verdadeiros roteiros de cinema surrealista. Hoje tive um que parecia filme de guerra civil na África. Vai ver que eu sou uma cineasta reprimida (socióloga reprime os pensamentos). – Precisamos parar de esquecer de entregar os livros na biblioteca, caso contrário, iremos à falência. – Tem dias quentes que eu queria tanto que as minhas sapatilhas do trabalho fossem havaianas. E porque a moça do meu trabalho acha que é uma sadomasoquista de filme pornô? – Tempo demais já passou. Tempo demais. Vamos logo deixar de nostalgias. – Porque é tão difícil aprender a calar quando você deve? – De fato, muitas meninas de Brasília secam o cabelo. Você vê lá a moçoila de cabelos lisos e, de repente, descobre que ela é ondulada. Que sério. – Eu quero um cachorro! – Onde estará a Paulinha? -Talvez Sociologia Organizacional não seja tão ruim. Mas só talvez.

Cheiros e gostos

Depois que eu me apaixonei pela cozinha, fiquei ainda mais atenta pelos cheiros e gostos do mundo. Não só pelas sensações causadas pelos ingredientes culinários, mas fiquei também mais sensível àquelas sensações causadas pelas pessoas também. E a saudade sempre acaba ajudando neste sentido…

Eu sei o cheiro da minha mãe de cor. Quando eu pego numa roupa roubada emprestada trazida de Salvador, é como se eu estivesse no quarto dela de novo. Ela tem um cheiro forte, que mistura sabonete, perfume e shampoo. Mas que é todo dela e que eu reconheço em qualquer lugar em que ela tenha estado, porque é daqueles cheiros que ficam impregnados nas coisas. Quando eu sinto o cheirinho de mãe, sempre acabo ficando mais calma. E saudosa também. Eu também consigo lembrar do cheiro de Hi, a minha cadela que ficou em Salvador. Eu não sei muito bem explicar qual é a diferença do cheiro dela pro cheiro habitual de cachorro… a diferença deve ser só porque ela é minha cachorrinha mesmo. O cheiro do meu bem também é inconfundível. Mesmo que ele mude de perfume, o cheiro mantém uma essência que é sempre tão boa. E é só sentir o cheiro quando ele não está pra já sentir o abraço e o beijo dele. Era assim quando a gente namorava a distância. Quando nos separávamos, sempre ficávamos com uma blusa um do outro. Pra ficar sentindo o cheiro até acabar. Eu também posso me lembrar do cheiro da minha avó, que tem aquele cheirinho bom de comida e de coisa limpa ao mesmo tempo e da minha madrinha, que tem um cheiro que me lembra o cuidado e o carinho dela. E da minha amarela preferida, que eu sinto só de entrar em casa. Sempre que estou perto daqueles que eu não posso ter sempre, cheiro muito bem pra guardar de novo na memória olfativa. Eu queria mesmo era poder ter uma caixinha com o cheiro de todos eles, pra sentir quando eu quisesse.

E o cheiro da minha avó sempre me leva à outros cheiros, aqueles cheiros bons da cozinha. Acho que devo um pouquinho dessa minha paixão à ela, que cozinhava tanto pra gente. E eu consigo lembrar de vários cheiros e gostos que marcaram a minha infância vendo ela cozinhar, assoviando ou cantarolando alguma música do interior do Rio de Janeiro. Como aquele do rocambole doce que ela fazia com tanto carinho pra mim. O cheirinho da canela e do brigadeiro. O bife do almoço com cheirinho de vinagre e o cheiro do feijão que é só dela. O purê de batata e o arroz com ovo que ela só fazia pra mim, porque eu sempre fui fresca pra comer. Eu já tentei muitas vezes fazer igual, mas não adianta – só o prato de arroz com ovo dela tem aquele cheiro e gosto. E até a cenoura, crua e inteira, que ela estendia o braço pra me dar, porque só a dela era tão gostosa.

E também os cheiros e gostos novos da cozinha, que agora é bem mais minha. O cheiro de manjericão fresco e seu gostinho característico, de pimenta do reino e de cebola fritando. De óregano, alecrim e da pimenta de cheiro… Do cuscuz de milho coberto pelo queijo derretendo, do leite com chocolate, do bolo de milho e até da broa com erva doce. Do estrogonofe gostoso e cheiroso que só é assim na minha casa, de feijão de tempos e tempos e da mandioca cozida, coberta por aquela manteiga derretida. E porque não falar da fondue, da gorgonzola e da mostarda? E também o cheiro da cerveja e o gostinho da cachaça com limão e mel.

E há tantas outras coisas pra sentir ainda… o que é sempre bom de saber. 🙂

80 dias sem chover

Brasília – DF

Tempo no Momento
Temperatura: 26ºC Condição: Alguma nebulosidade
Pressão 1022hPa Umidade: 26%
Direção do Vento: ENE Visibilidade: OK

Fonte: Climatempo.com

80 dias sem chover na capital federal. Aproximadamente 11 semanas e meia sem um pinguinho de chuva sequer, pessoas. Agora a umidade à tarde oscila entre 40 e 20%, mas isso porque ainda estamos em julho. Quando agosto chegar, bateremos a marca de 10% de umidade no ar, e será como estar no Deserto do Atacama.

Quando eu cheguei em Brasília, pra morar, já conhecia a seca daqui. Na verdade, eu tinha vindo visitar o Distrito federal no ano anterior e em pleno mês de agosto. Foi terrível, por esse lado. Eu ainda não tinha me acostumado com a idéia de que eu tinha que me entupir de hidratante pra viver, afinal de contas, eu tenho a pele seca. Mas em Salvador, cidade litorânea e de 90%, eu só precisava passar hidratante nos joelhos e nos cotovelos. Só depois de ficar com as pernas machucadas pelo atrito com a calça, os lábios rachados e os cotovelos feridos, eu entendi a mensagem. E não esqueci mais. E como eu vim estudar em abril, ainda época de chuva, acompanhei a transição do molhado para o seco e não foi assim tão traumático.

No entanto, ainda assim, é meio estranho quando a seca chega a cidade. Brasília, conhecida por seus gramados e árvores frondosas entre os prédios de concreto de Niemeyer, fica amarela. A não ser por alguns canteiros, onde o governo gasta água pra mantê-los verdinhos – e o porteiro do meu prédio também, sacaneando a minha conta de água. De resto, tudo fica amarelo e empoeirado, com o barro vermelho que me faz lembrar do sertão da Bahia. Muitas árvores, no fim do inverno, estão acizentadas ou já sem folhas. Até mesmo os Ipês, de todas as cores, começam a sumir. De azul só o céu, que falta rachar de tão azulado. Você olha pra cima e o Sol reina absoluto, sem qualquer nuvenzinha pra atrapalhar seu brilho. Ah, e o Lago Paranoá, artificial, que ninguém me convence que é azul. Tá mais pra amarronzado, coitado… Mas se não fosse por ele, vida humana nessas paragens não era possível. A única fonte de umidade da capital em tempos secos.

A paisagem muda, e os brasilienses e candangos mudam também. Todo mundo fica com um expressão meio enfezada, que só a secura pode dar. Fungando e com uma garrafinha de água do lado. E tome-lhe água. Nas conversas de elevador, só se fala da seca que esse ano tá braba, ontem o jornal disse que só vai piorar, acredita? As mocinhas tem sempre um hidratante nas mãos e até os mais machões tem que se render. E todo mundo apela pra sua entidade metafísica, pra que ela acelere a chegada da chuva. Eu mesma tenho uma dancinha própria, que funcionou no ano passado. Mas ela só vem em outubro ou novembro, quando começa a outra estação de Brasília, a chuvosa, que vai até maio ou junho. Logo nos primeiros dias, as pessoas irão começar a reclamar que chove demais e que era melhor quando estava seco. Não adianta. Ninguém nunca vai estar satisfeito.

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Enquanto a chuva não chega, o Ser Taisante está no estágio, cheia de hidratante e de água. Mas ainda com dificuldades pra respirar e me perguntando colé de mêrma de Juscelino Kubstchek. Todo mundo fala como o cara era sensacional, sabichão, visionário, mas eu tenho lá minhas dúvidas, viu. Brasília não foi uma cidade feita para humanos normais. Podia muito bem ter escolhido um lugarzinho menos árido, velho… ou pelo menos de chuva mais constante.

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Agora eu respondo os comentários na página dos comentários, e tudo graças à Cláu!

A minha calça é nº 46

Prontofalei.

Dito assim, parece até um tapa na cara. Não é como dizer que eu visto 36, 38 ou até 40. Não. A minha calça é 46. Sabe como é, bunda, quadril, perna e um pouquinho da barriga. Não dá pra negar os genes da família carioca. Afinal, a primeira coisa que o meu avô viu na minha avó, segundo ele, foi a bunda. E ela anda requebrante ainda hoje, do alto dos 80 anos.

Dependendo da fôrma, pode ser 44. Mas só se for uma super fôrma, do tamanho da 46. Então, de qualquer jeito, a minha calça é 46. O ponto é que, numa sociedade que preza as magras, digamos que eu corto um dobrado pra achar calça. Sorte que o acaso colocou uma fiel escudeira do meu lado que usa 48. Assim, tenho uma companhia na empreitada de procurar calças por aí.

O que me deixa com raiva é o fato de que eu moro no mesmo país que idolatra a Mulher Melancia. Como é que eu, no país da bunda, não consigo achar uma calça que caiba a minha? Em teoria, as brasileiras são conhecidas por seu biotipo violão. Mas, quando vamos buscar roupas nas araras, o maior número é o 42 – às vezes não passa nem da panturrilha, quiçá da poupança. Apaputaquepariu!

Então, todas as vezes em que eu sei que tenho que comprar uma calça, tenho que me preparar psicologicamente antes. É bem possível que eu não ache nada que suba. Mesmo depois de procurar em 1368543546543 lojas. E se não tiver uma C&A no Shopping, é melhor nem tentar. A C&A é uma das únicas lojas que oferecem números maiores de calças, e é a loja que acaba me salvando de sair nua por aí. Mas o resto praticamente ignora os números acima do 42. A Riachuelo e a Renner, por exemplo, param na 42. Às vezes ficam só na 40 mesmo. E se você for tentar uma loja de marca, como a M. Officer ou a Sandpiper, é só pra sair com raiva. Ainda mais se tiver que lidar com vendedores. Eles querem te convencer que você usa um número menor, e te fazem perder tempo trazendo uma peça que você sabe que vai ficar pequena. E, quando trazem o número certo, fazem uma cara de pena ao ver que coube em você. ¬¬ Como é que você não se sente mal por ser gordinha? Não dá nem pra se vestir! Às vezes eu acabo comprando só pelo número mesmo, tendo que me contentar por ter uma forma que caiba e fique legal. É muito difícil a calça ser linda e caber em mim!

Pior do que isso, na minha opinião, são as poucas roupas que você encontra nos números grandes nessas lojas. São roupas feias, gente. Feias, mesmo. Algumas lojas de roupas especializadas se salvam. Mas não são muitas. E tem gente que tem coragem de dizer na minha cara que não é discriminação. Como não é? Todo mundo dizendo pra você o tempo todo: se você é gorda, filhota, se lenhou. Não tem como ficar bonita, não. Além de ser estigmatizada por estar acima do peso, vai ter que se vestir mal. É um ciclo vicioso terrível. E depois ninguém entende depressão, bulimia e anorexia.

Eu não me conformo, não. Droga de mundo unidimensional. E isso é uma reclamação que vale pelo meu quadril, pelos meus pés, meus peitos e meus cabelos! Todos fogem dos padrões! ¬¬

O chefe

No dia em que eu conheci o meu chefe na entrevista de estágio, confesso que não reparei muito nele. Eu estava bastante desesperada pra conseguir aquela vaga e não reparei nos atributos físicos e comportamentais do homem. Queria era saber se eu conseguiria a vaga, porque já andava bastante cética em conseguir um emprego… Cheguei na sala arrumadinha, tentando parecer A candidata a vaga. Eu tinha que conseguir, afinal, era aparentemente a única pessoa tentando, e ainda tinha a indicação da estagiária antiga (nêga, eu nunca vou poder te agradecer o suficiente!). Lembro-me que ele me dispensou rapidamente, e a coisa foi tão breve que eu não consegui nem saber direito se tinha conseguido o estágio. Só depois que eu fui saber que sim, e pude começar a dar entrada em todos os trâmites burocráticos… Ficou só a impressão de que ele era meio seco. Poucas palavras, que ele julgava suficientes. E mais pra frente, eu ia perceber o tanto que eu discordava desse julgamento.

Então, eu consegui o meu tão sonhado estágio e comecei a ir pro trabalho todas as tardes. Decepções profissionais à parte – afinal pior do que ter um estágio é não ter um estágio, salvo casos excepcionais – eu comecei a reparar nas pessoas do meu trabalho. Preciso dizer que é um ambiente bastante diversificado, constituído de uma fauna e flora impressionante. Aliás, o serviço público como um todo merecia uma etnografia detalhada. Algum cientista social se habilita? Se eu já não tivesse meu coração conquistado… Mas, voltando, então, é uma turma que parece ter sido escolhida a dedo pra criar impressões ruins do meu primeiro emprego, mas esse não é o caso do chefe especificamente. Quer dizer, é também, mas ele não é um dos fatores mais incômodos do trabalho. O problema dele é outro – ele parece o meu pai.

É, gente. O meu chefe parece o meu pai. E eu sei lá que explicação Freud tem pra isso, e o que isso influencia na minha relação com ele. Mas o fato é que o chefe parece o meu pai. É uma semelhança física, mas também comportamental. E isso é tão estranho! Os dois são senhores de corpo avantajado, com entradas nos cabelos, e um óculos meio apertado que usam de vez em quando. Tem um apetite visivelmente atípico e também andam de maneira parecida. Fazem piadas com tudo e com todos e são inteligentes pra caramba. Embora às vezes não pareçam muito, principalmente pelo senso de humor um pouco forçado, mas os dois são sabidos, além de senhores com idades próximas. E, ainda por cima, tem conhecimentos em áreas um pouco afins: Administração e Economia (ok, especialistas dessas áreas, evitem as pedradas nessa menina boba e ingênua das ciências sociais). É pena só que o meu pai não ganhe igual ao meu chefe, que é um gestor público de modestíssimo salário.

E o mais estranho é ver a relação do meu chefe com a filha pequena dele e me identificar. É o mesmo tratamento terno que o meu pai tinha comigo quando eu era criança. E que, de vez em quando, ele ainda tem. O meu pai foi o legítimo pai babão, pelo que a minha mãe conta e o que as fotos e os vídeos mostram. Era a típica relação de pai que fica mimando a filhotinha, e que é diferente da relação que os homens tem com os filhos meninos algumas vezes. Hoje o chefe trouxe a filhinha dele no trabalho, e eu me peguei encantada olhando pros dois, tão bonitinhos, e acabei lembrando do meu pai e de coisas antigas.

Mas, então. É realmente muito estranho ter um chefe que parece o meu pai. É só menos estranho porque ele é meu chefe mais formalmente, mas na prática a sala toda manda na estagiária. Mas, sempre que eu tenho que tratar diretamente com ele, ou quando ele vem me pedir alguma coisa, eu fico sentindo um misto de ternura e estranheza por ele. O que é algo totalmente atípico da relação entre chefe e subordinado. Talvez, por ele parecer o meu pai, eu fique buscando justificativas e tentando entender o jeito sem palavras dele. Termina que eu sempre adoto uma atitude mais branda com ele, “Ah, mas é que ele é muito ocupado e coisa e tal…“, e coloco a culpa do meu estágio ser uma porcaria nas costas dos outros. Mas é muito, muito estranho…

Antropóloga ou socióloga? Sócioantropóloga!

Antes de começarem a ler, relevem todas as impressões reducionistas das Ciências Sociais contidas no post. É que nos últimos tempos tenho ficado bastante prática!

No ano anterior, a menina tinha decidido que ia ser turismóloga. Prestou o vestibular da estadual e passou, mas depois achou que não queria mais. Veio o terceiro ano e ela tinha que decidir por outra coisa. E não fazia idéia do que ela queria ser quando crescer. Lembrava de quando era criança, e essa resposta ela tinha na ponta da língua, deu até entrevista. Numa voz ainda mais fina: eu vou ser cabeleireira, dentista, modelo e bancária. Pá-pum. E agora, crescida, toda aquela indecisão. Pela família, devia ser advogada ou engenheira. Mas, como boa revolucionária de trancinhas e gorro preto, sabia que era isso que ela não queria.

Chegou o São João, e lá foi ela pro pé de serra, ensaiar uns passinhos de forró e espairecer. Reencontrou alguns bons amigos e conheceu outros novos. Dentre os últimos, um antropólogo desequilibrado vindo de terras distantes. Era muito divertido o moço. Ele contou pra menina sobre tudo que estudava, sobre etnografias e grupos sociais e no fim, ela tinha os olhinhos brilhando. Achou tudo ótimo. Mamãe quase teve uma síncope. Quando chegou a época de escolher, não teve quem fizesse e ela marcou seu xis em Ciências Sociais. Achava tudo lindo e quando passou, estava em êxtase! Ela seria antropóloga! Seu sonho, embora não admitisse abertamente, era ser aquele moço vestido como o Indiana Jones que contava sobre determinado hábito exótico de algum agrupamento social perdido em qualquer lugar do mundo. E, claro, provocar aquela cara assustada nas pessoas: Sério que eles fazem isso? Que estranho!

Er… mas então. O primeiro semestre passou e ela começou a achar tudo ruim. As aulas eram péssimas, e a de Antropologia era uma das piores. Era tão ruim quanto a de política, mas ela não gostava de ciência política. Ela queria era o viés antropológico. Mas, putaquelosparió, aqueles professores toscos tinham sido escolhidos a dedo pra broxar a menina. Eu tenho certeza. Deve ter sido algum tipo de intervenção metafísica, alguma bruxa que amaldiçoou o curso dela. E ela não estava gostando. Até deixou de usar seu chapéuzinho de exploradora por um tempo.

E foi nessa época também que ela começou a sacar que não queria estudar povos indígenas, camponeses ou algum grupo social exótico. Ela queria estudar povos urbanos, o próximo. E achou que a Antropologia Urbana poderia lhe salvar. Mas quem disse que ela deu o ar da graça nas matrículas? Quando deu, ela ainda não tinha os pré-requisitos. E quando ela passou a ter, não ofereciam a disciplina. Aí ficava difícil. E seus professores antropólogos só sabiam falar dos Araweté, dos Ashaninka, dos Bororo – e ao serem perguntados, reconheciam a existência da Antropologia Urbana, mas ninguém sabia falar muito bem dela.

Enquanto isso, no mundo sociológico, as coisas andavam mais promissoras. Os professores eram melhores, de fato. E também proferiam aspectos sobre grupos que eu queria conhecer: o mundo urbano. O problema é que o método da Sociologia me parecia um pouco equivocado, às vezes, com seus dados estatísticos e entrevistas um pouco mecânicas. Embora ninguém verdadeiramente reconheça que este é o método sociológico, é tudo que a gente vê os sociólogos fazerem. Eu queria era fazer etnografia, que todo mundo dizia ser da Antropologia. E agora, José?

Foi aí que eu decidi que ia pedir a dupla habilitação: ia ser bacharel em Antropologia e em Sociologia também. Resolvia meus dois problemas. Formava em um e no outro, e pegava as coisas boas dos dois. E olha que cientista social preparada eu ia ser, hein? Massss, a verdade é que o fim do curso vai chegando e a gente vai ficando mais prática, gentem. E formar em dois bacharelados requer duas monografias. Tempo pra caramba na faculdade, onde eu já não aguentava mais ter aulas. Além do mais, precisava logo de um diploma, pra arrumar um emprego. E, amigos logo me contaram, eu podia fazer um mestrado depois na outra área e ter as duas formações. Então, deixei de ser megalomaníaca e decidi optar de novo por apenas uma área. Analisando o restrito campo de trabalho das ciências sociais, larguei as raízes e fui pra Sociologia. Aí o chapéuzinho do Indiana Jones ficou no fundo do armário de vez, porque o coelho que ia trabalhar com demarcação de terra indígena, eu mêrma não! Não que a Sociologia tenha um campo assim muito melhor, mas pelo menos estava mais perto do que eu queria fazer da vida. Além do mais, eu sempre poderia dar minhas pitadinhas de antropologia nos trabalhos. E, pra complementar e evitar o desespero completo, optei também pela licenciatura em Ciências Sociais. Na falta do que fazer, podia dar umas aulas em alguma escola de ensino médio por aí… embora eu arrepie só de pensar.

Ainda por cima, nesse meio tempo, eu comecei a cozinhar e tomar gosto pela coisa. E decidi também que queria fazer gastronomia da vida taisante. Mas, esse era um plano lá mais pra frente , porque 900 contos de mensalidade é só pra quando eu for gestora pública. E a paixão ficou lá, latente. E, por um acaso do destino, eu fui apresentada a Sociologia e a Antropologia da Alimentação. Aí, menino, a coisa engatou de vez e ficou linda! Eu me apaixonei de vez, e resolvi juntar hábitos alimentares e identidade social na monografia. E nessa área eu também poderia misturar as duas coisas, como muitos autores que analisam este aspecto da vida social. E foi assim que eu acabei indo parar na Sócioantropologia – termo que eu li no livro do Jean-Pierre Poulain, Sociologias da Alimentação, e carreguei pra mim! Mas a verdade é que meu irmão nutricionista ainda torce um pouco o nariz.

Bom, agora sou uma quase socióloga praticamente bem resolvida, que dá olhadelas interessadas para antropologia e resolveu observar gente comendo. E que reza pra conseguir um emprego depois disso.