Choveu que abarrotou!

E, naquele instante, a cidade respirou aliviada. A cidade, tão urbana e dita independente daqueles fenômenos. Num segundo, as gotas geladas lavaram sua alma. Tilintaram nos telhados, nas antenas, na grama, nas ruas e nos cabelos. Molharam os prédios empoeirados, escorreram pela rua e afugentaram os vira-latas. Deram esperança às flores sedentas, aos canteiros amarelados, às arvores sem folhas, à primavera tímida.

E ao povo, já sem muitos estímulos, ressequido e mal-humorado.

Um novo recomeço.

Era uma chuva bem chovida, e eu tenho certeza de que até os pneus dos carros ficaram mais felizes. Três meninas molharam seus vestidos e seus sorrisos, num momento de pleno regozijo. O hippie de roupas surradas estendeu as mãos para a chuva, e lavou-as num sorriso breve. A água descia pela rua, e levava toda aquela poeira vermelha embora…

E quem se importa com o fato de que essa chuva vai ser razão de praguejar na semana que vem? Esse momento vale todos os outros.

Foi tanta água que meu boi nadou!

Eu?

Eu vou bem, obrigado. Tirando a vontade de esganar meu chefe, de dar um chute no coroa tarado do meu trabalho, de cozinhar descontroladamente, de matar todas as aulas daqui pro final do semestre, de ver a família, de largar o meu estágio, de não ir mais a reuniões inúteis, de ir pra praia, de morar em uma casa grande, de comprar cem mil livros e cds, de rir na cara de algumas pessoas e de ter um cachorro, até que vai tudo bem. Juro.

E também prometo mudar de teclas daqui a uns dias.

Considerações taisantes nº 46876136

É fato, galera. Eu nasci pra cozinhar e fazer as pessoas felizes. Pronto. E nem tô preocupada pro quão Amélia isso possa parecer. Ok. Talvez um pouquinho. A Sociologia acaba com a vida das pessoas. – Nada como uma noite de domingo de tagarelice com os amigos de sempre. E você nem sabe como já é uma da manhã tão rápido. – E continuamos treinando o desapego… consegui entrar em um shopping, passear em lojas com promoção e saí sem nada. NADA. Nem aquela sapatilha linda e maravilhosa, que ficou sensacional nos meus pés. *funga* – Digamos que a cólica e a dor de cabeça pioram quando você sabe que tem aula no outro dia. Que coisa feia, Taís. – Vamos evitar Os desafinados, pessoas. Mais uma prova da incrível mas não louvável capacidade humana de alongar um filme insosso por duas horas e meia. – Esse calor não é de Deus. Não é! E que venha essa chuva, de uma vez por todas. A gente olha pro céu e não vê o azul. São nuvens, sim. De poeira. o.O – Talvez trabalhar com os produtores do símbolo não seja assim tão ruim, mocinha. – O poder de Coldplay sobre mim é algo impressionante. É plim, e pronto. Já estou melhor. – Vamos evitar as conversas sobre Salvador, por favor. Ainda faltam três meses e eu realmente tenho evitado pensar sobre isso. – E eu quero um cachorro. Quantas vezes eu tenho que dizer isso? Pode ser qualquer um! – Tenho rezado por você, amigo. E desejado as melhores coisas. Pra você e pra minha velhinha. – E eu tenho reprimido razoavelmente a minha vontade de cuidar do mundo inteiro. Isso tem me feito bem. Mesmo!

Dos desenhos animados politicamente incorretos

O desespero dos pais modernos para que seus filhos não assistam desenhos politicamente incorretos é evidente. Eu vejo isso em parentes e colegas, pais de criancinhas que, às vezes, não podem nem assistir televisão. É interessante essa técnica de proibir os hábitos que não queremos que nossos filhos desenvolvam – porque todo mundo sabe que isso só instiga a curiosidade e a vontade de fazer o que não se deve. Mesmo que nem se entenda muito bem do que se trata. Mas, então, voltando. Deixa eu contar um caso: Tem um tio meu que proibia uma prima de assistir televisão. Uma vez questionado sobre o porquê da proibição, ele respondeu: “Os desenhos de hoje em dia são muito violentos, além de incitar a sexualidade de forma precoce.” Eu fiquei pensando sobre isso. Assisti uns desenhos com meus irmãos pequenos por um tempo e comparei com aqueles que assistia quando era menor. Se eu pudesse lhe responder, diria: “Tio, preciso te contar que os desenhos de antigamente eram tanto quanto ou ainda piores. E olha eu aqui, sou até um produto legal.”. E ele não ia poder dizer muita coisa… Talvez pedisse alguns exemplos. Vamos dar a ele.

O Pernalonga, por exemplo. Querem um exemplo mais escroto de personagem? Ele é folgado, é preguiçoso, oportunista, malandríssimo. Usa das artimanhas mais reprováveis pra conseguir o que quer. E pobre do Patolino – que aliás, é abestalhado, coitado. O Gaguinho também é totalmente ludibriado nas mãos do ardiloso Pernalonga. No grupo dos enganados, temos também o caçador gago e inseguro, o Elmo, que o persegue com uma espingarda em todo canto. O Pernalonga só perde a segurança diante de uma bela coelhinha curvilínea. No início, podia ser qualquer uma. Depois de um tempo, ele começa a estabelecer uma relação relativamente monogâmica com a Lola Bunny. Desenho que ganha tons sexuais, belicosos, praticamente subversivos. Mais politicamente incorreto, quase impossível.

Tom e Jerry também deveriam ter ido pro saco da censura, coitados. Um gato e um rato, numa perseguição levemente sádica. O gato, bobalhão, nunca consegue pegar o ratinho astuto – a não ser em episódios excepcionais. E vale tudo na perseguição, objetos como facas, bombas, ratoeiras, tesouras e revólveres são utilizados em todos os desenhos. Além disso, os dois também fumam charutos em alguns episódios. E, como o Pernalonga, também não se continham diante de uma gata ou uma ratinha charmosa.

Eu assistia os dois e adorava. Além deles, também tínhamos o Pica-pau (um caso à parte), a Família Addams, os Power Rangers e o Garfield. Assim como eu também assistia Os Ursinhos Carinhosos, Meu querido pônei, Moranguinho, Capitão Planeta, Scooby-Doo, e outros, com mensagens mais amenas, até bem moralistas.

E, mesmo assistindo todos esses desenhos, violentos e etcetera, a pessoa está aqui, muito bem formada. Talvez um pouco revolucionária, mas digamos que isso é culpa do mundo cão em que vivemos. Nunca matei, nunca roubei, não fumo – só imprimo em papel rascunho, jogo papel no lixo e ajudo velhinhas a atravessarem a rua. Posso me considerar uma pessoa de caráter razoável. Eu e um monte de gente que também assistia o Pernalonga, o Tom e Jerry e o Pica-pau. Talvez não seja culpa dos desenhos… Ahn, eu, insinuando alguma coisa? Mágina, bem.

Raindrops keep falling on my head…

Raindrops keep falling on my head
And just like the guy whose feet are too big for his bed
Nothing seems to fit

Those raindrops are fallin’ on my head, they keep fallin’

So I just did me some talkin’ to the sun
And I said I didn’t like the way he got things done
Sleepin’ on the job!

Those raindrops are fallin’ on my head they keep fallin’

But there’s one thing I know,
The blues they send to meet me, won’t defeat me
It won’t be long till happiness steps up to greet me

Raindrops keep fallin’ on my head, but that doesn’t mean my eyes will soon be turnin’ red,
Cryin’s not for me, cause I’m never gonna stop the rain by complainin’

Because I’m free, nothings worryin’ me

It won’t be long till happiness steps up to greet me

E entende que há mais dos seus pais em você do que supunha…

Eu sou geniosa como a minha mãe.

Quando tenho raiva, sou acometida pela mesma falta de bom senso que detestava nela. Sou capaz de dizer coisas que não deveria e fazer comentários grosseiros e irônicos. E, como ela, de me arrepender muito depois. Tenho a mesma dificuldade pra pedir desculpas. Ao mesmo tempo, sou como o meu pai, que sente as coisas e não conta pra ninguém. Sou capaz de alimentar grandes ódios e grandes paixões quase calada. Dele também vem um pouco da “caseirice” que às vezes toma conta de mim, o prazer de passar uma tarde inteira lendo um bom livro e o gosto pelo mato. A minha mãe me ensinou a gostar da boemia, de Legião Urbana e a detestar matemática – porque ela gostava muito e não tinha paciência pra me ensinar. Eu sou teimosa como ela e a vaidade, que eu tinha guardada, foi ela quem deixou aqui também.
O meu pai quem incentivou o meu gosto estranho por documentários e por bichos. Ele, meu irmão e eu sempre torcíamos pra que minha mãe permitisse um gato ou um cachorrinho. No entanto, tivemos que nos contentar com tartarugas, peixes, passarinhos e hamsters. É dele a minha mania estranha de assistir Globo Rural nos domingos de manhã e o meu eventual prazer de acordar cedo. A minha mãe me ensinou a ser sociável. Ela é a culpada por eu gostar de encher a casa de amigos e lhes oferecer coisas gostosas pra comer. [E não, não é de nenhum deles que tirei a minha paixão pela cozinha. Minha mãe corre de qualquer panela e meu pai não tem muita intimidade. Isso vem da vó.] Talvez seja por causa do meu pai que eu durmo em qualquer lugar. E bem rápido. É deles que vem a responsabilidade e a crítica também. E tantas outras coisas que eu não vou conseguir lembrar.

É interessante pensar em tudo que os pais depositam na gente. E, por mais que você não conviva mais tanto com eles, pensar que muitas dessas coisinhas vão te acompanhar para sempre é muito estranho. E, na saudade, lembrar disso aperta ainda mais um tiquinho…