Taisando no trânsito

Depois da primeira aula prática de direção, você entende o significado da expressão: “O trânsito é uma selva”. E uma selva povoada de bichos malvados. Snif, snif. Eu, canceriana abestalhada que sou, mal dava conta de acertar dirigir, que dirá responder aos impropérios que eram direcionados ao carrinho da auto-escola. Afinal de contas, se tem uma coisa de que eu me lembro daquelas aulas teóricas intermináveis é a tal da direção defensiva, que apesar de ser meio boba, poderia ser útil. E sempre que escutava uma buzina desaforada, respirava fundo e continuava tentando dirigir.

Era isso que eu fazia… até o dia 28/09/2008, às 15:16 (ok, a hora foi inventada). Me marcou, sabe? Escutem leiam a história.

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Era uma tarde quente. Estava Taisinha serelepe no Palio vermelho do namorado, indo buscá-lo na saída de um concurso. No dia anterior, o namorado decidira fixar um adesivo estampando a bandeira da Bahia no párabrisa do fundo do carro. E a mocinha nem se lembrava disso, concentrada que estava no trânsito de um domingo de concurso.

Foi então que, no meio do caminho, apareceu uma rotatória (ou queijinho, ou balão, fica de acordo com a vontade do freguês) movimentada. Pacientemente, esperei a minha vez. E quando acreditei que esta havia chegado, lá fui eu. No entanto, o mocinho à minha direita pareceu não concordar com a minha entrada na rotatória. E o pneu dele cantou com a frenada. Certa da minha preferência, segui, terminando a rotatória e seguindo na via. E achei que tinha ficado tudo bem, era só uma bobagem de alguém que não conhecia as leis de trânsito. Mas o Punto atrás de mim não concordou.

Seguindo-me na via em alta velocidade, emparelhou o carro do lado do meu, buzinou e gritou: “Baiana barbeira!!!”

¬¬ Foi então que eu decidi que aqueles anos de resignação tinham chegado ao fim. E um simples palavrão não servia.

Iansã desceu em mim, e com o dedo médio em riste gritei: “Axé pra você, meu rei!!!”

Acelerei e fui me embora. E eu quase pude ver a cara dos animais da selva embasbacados com meu grito de independência. Ahá.

Considerações taisantes nº46876137

Impressionante como o trabalho pode irritar a pessoa. Estou perdendo as esperanças com a possibilidade de ser feliz em um escritório… ainda mais nesse. Adivinha? Estou de novo procurando um novo estágio. Mas, como já sou uma vendida, só saio desse quando arrumar outro. Quem tá afim de uma socióloga esforçada e responsável? – Quando tudo está dando nos nervos, o legal é ter alguma coisa pra se prender. Por isso, ando cozinhando loucamente. Já fiz escondidinho, mac and cheese, bolo de fubá com erva doce e isso só nos últimos três dias. Como não sou a pessoa mais desocupada, isso ocupa o resto do tempo que me sobra. E onde fica o estudo? Sei lá. Ok, mãe, se você leu isso é tudo mentira. Não larguei os estudos pra virar Amélia. Juro! – Ok, ir pra Salvador está se tornando uma necessidade fisiológica. Tudo que eu quero são dias de descanso, conversando, rindo comendo e matando saudades! E praia, ah, meu Deus, praaaaaaaaaaia! Mal posso esperar. E ainda faltam dois meses inteirinhos! – E lá vamos nós a uma excursão antropológica num encontro de Ciências Sociais. Velho, vamos combinar? A gente não presta. Mas eu adoooooooro! – Se vocês não conhecem Mapeamento de Processos, evitem. Total. Quando eu digo total é mantenham um quilômetro de distância! Não sei como fui capaz de um dia eu cogitar a hipótese de trabalhar com Sociologia Organizacional. – Ai, e será que dá dinheiro trabalhar com Segurança Alimentar? Sou o pragmatismo personificado!

Eu realmente me sinto velha, sem acreditar e nem lutar por coisas que me eram caras. Mas, em alguns dias, você percebe que seu ceticismo não é tão profundo assim. E isso te faz um pouco mais feliz.

Encontrar essa frase foi especial. Significa muito pra mim.

A fé é um pássaro azul que a gente vê de longe. É tão real e verdadeiro quanto a primeira estrela da noite. A gente não pega, nem compra ou embrulha ela. Mas a fé está lá, sempre a mesma, fazendo as coisas ficarem certas.

BERNARDO e Bianca (The Rescuers). Estados Unidos: Walt Disney, 1977. Longa-metragem, colorido, 78 minutos.

Gabito

Eu juro pra vocês que eu evito me encontrar nos livros dele. Pra evitar ser daquelas fãs insanas, que são capazes de ver chifre em cabeça de cavalo. Mas, fica difícil!

Minha mãe se apressou a explicar a verdade: ninguém se opunha a que eu fosse escritor, desde que fizesse uma carreira universitária que me desse um chão firme. O doutor minimizou tudo, e falou da carreira de escritor. Ele também gostaria de ter sido escritor, mas seus pais, com os mesmos argumentos de minha mãe, obrigaram-no a estudar medicina depois de fracassarem na idéia de torná-lo militar.

– Pois veja só, comadre – concluiu. – Médico eu sou, e cá estou, sem saber quantos de meus enfermos morreram pela vontade de Deus e quantos morreram por causa dos meus remédios…

Minha mãe sentiu que estava perdida.

– O pior de tudo – disse ela – é que parou de estudar Direito depois de todos os sacrifícios que fizemos para sustentá-lo.

O doutor, pelo contrário, achou que era uma prova esplêndida de uma vocação arrasadora: a única que tinha capacidade para desafiar o amor.

In: MARQUEZ, Gabriel García. Viver para contar. 5ª edição. Rio de Janeiro: Record, 2004. pp. 33.