Considerações Taisantes

– As pessoas são repetitivas. E eu também, não me canso de repetir isso. Pra mim esta é uma daquelas verdades da vida, que você não para de constatar em todos os lugares, em todas as pessoas, em todos os momentos. Argh. Isso é chato.

– Orientadores são pessoas más. Aliás, eles podem não ser pessoas más, mas tem diversas atitudes ruins. E você quer dar uma porrada neles, masss, como boa lady que é, se limita a sorrir enquanto ele se desmancha em desculpas.

– No final das contas, as coisas não estão tão horríveis quanto você pensou. E quem sabe você até escreva bem. Hehe.

– Eu sou incapaz de ler coisas por mais de três horas. Isso é crítico. Preciso dar conta daquela pilha de livros pelo menos até o meio de abril pra recuperar todos os prazos que perdi.

– É tão mais fácil deixar as coisas passarem. Você vai vivendo e elas continuam ali, mas o tempo vai passando e colocando uma poeira em cima delas. É só não espanar nada e pronto. O problema é quando vem aquela brisa discreta… eu finjo que não vi. Talvez eu tenha aprendido que alguma coisa estão além do meu alcance. E vou levando.

– Músicas novas, são sempre tão bem vindas. Na verdade, não é que sejam novas, mas você se dispôs a conhecer mais. Billie Holiday, Madeleine Peiroux, Jack Johnson, Little Joy, Paulinho da Viola, Noel Rosa… deixam as coisas mais poéticas, definitivamente. E um pouco perturbadas, também.

Well, summer came along and then it was gone
And so was she, but not from him
Because he followed her just to let her know
Her dreams are dreams
All this living’s so much harder than it seems
But girl, don’t let your dreams be dreams
You know this living’s not so hard as it seems
Don’t let your dreams be dreams
Your dreams be dreams
Be dreams

Dreams be dreams, Jack Johnson

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Sobre o prazer de ser uma estudante de Sociologia

O velhote tarado e a estagiária entram no elevador. Ele apresenta visível interesse pela mocinha, que olha fixamente para um ponto no painel do elevador – tentando evitar a conversa, claro. Mas, não tem jeito.

– Olha, você faz estágio aqui? – pergunta ele, com um sorriso que talvez pretendesse ser sexy.

Não, imbecil, pensa ela. Só estou passeando pelo prédio com um crachá porque pareceu uma idéia divertida. Mas ela se limita a:

– Uhum.

– Ah, que legal! Deve ser muito bom estagiar aqui, não é?

Ele esperava uma resposta, será? Na dúvida, ela respondeu.

– Uhum.

Tentando mais uma vez uma aproximação [Meu Deus, o quarto andar nunca chega!], perguntou:

– E qual curso você faz?!

Ela, com um sorriso de prazer nos lábios, respondeu:

– Sociologia.

E foi a vez dele de responder:

– Uhum.

Fim de papo.

Adouuuuuuuro isso!

Cara de pau pouca é bobagem

General deixa posto no Rio com elogios ao golpe militar de 1964

RAPHAEL GOMIDE
da Folha de S.Paulo, no Rio

Comandante substituído ontem do Comando Militar do Leste, o general Luiz Cesário da Silveira Filho despediu-se do cargo com um discurso exaltando o golpe militar que depôs o presidente João Goulart, em 1964, ao qual classificou de “memorável acontecimento“. (…)

Na presença do comandante do Exército, Enzo Peri, Cesário narrou sua participação na “histórica operação cívico-militar”: “Participei ativamente da revolução democrática de 31 de março de 64, ocupando posição de combate no Vale do Paraíba”. Então cadete do último ano da Academia Militar das Agulhas Negras, Cesário disse ter atuado sob “a incontestável liderança do general-de-brigada Emílio Garrastazu Médici, de patriótica atuação posteriormente na Presidência”.

Com o “memorável” eu não tenho problema, mas alguém por favor me explique a ressignificação de “revolução”, “democracia” e “patriotismo”, por favor. ¬¬

O pior é que um sacana desses ainda vai receber uma polpuda pensão com o dinheiro dos nossos impostos…

E uma dose de otimismo não faz mal

Alguns pontos de ônibus depois do meu, uma mocinha morena resolveu pegar o mesmo ônibus. Ela usava um uniforme de escola enquanto tentava achar, atrapalhada, o dinheiro para pagar a passagem. Depois de derrubar algumas canetas no chão, entregou uma nota amassada ao cobrador e girou a roleta – é claro que deixou a bolsa enganchada e teve que fazer uma forcinha a mais.

Eu assisti aquela cena com atenção. Não que menininhas do colegial sejam incomuns, mas aquela menina era… eu. Sim, sim, era dona Taís de uns seis anos atrás, alta, desengonçada e rebelde. Nos pés, ela tinha o par de sandálias de couro parecido, o cabelo enrolado trançado, escutava um reggae qualquer no último volume e piscava insistemente aqueles olhos castanhos enormes. Eu nem percebi o nariz visivelmente mais achatado que o meu. Só fiquei pensando que era eu.

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Aham, eu quase podia vê-la de gorro, metida na Revolta do Buzú ou choramingando por ser piegas. Tá legal que ela não tinha meu bronzeado baiano, mas, insisto, era minha versão brasiliense. Achei engraçado e ri sozinha, enquanto ela me olhava por baixo e devia me achar uma pessoa estranha. Alguns pontos depois, ela desceu do ônibus com seu caminhar desajeitado e eu fiquei lá, sozinha com meus pensamentos.

Foi aí que eu comecei a matutar o que diria a Taís com 15 pra mim, ali, com 21. Tenho certeza de que ela iria fazer aquela cara retorcida de estranheza diante da bolsa de mocinha e os cabelos arrumadinhos, mas ia gostar da sapatilha de zebrinha e da saia, ainda que rosa. Se nós conversássemos, ela ficaria feliz em saber que passou a morar em Brasília, se relaciono melhor com a mãe e tem um namorado muito querido – embora fosse difícil convencê-la que era o moço que ela morria de raiva na época. Consigo ver os olhinhos brilhando ao ouvir falar do curso de Ciências Sociais, da monografia e da inesperada paixão pela culinária. “Mas eu não virei Amélia, né?”, tenho certeza de que perguntaria. “Não”, responderia, “ainda que muitas pessoas te chateiem com isso.”.

Mas a parte mais legal desse encontro seria a contrapartida da Taís de 15. Ao me ver ali no ônibus, chateada por ir pra um estágio sem o menor sentido, ela me questionaria. “Porque você ainda vai? Isso não te faz nem um pouco feliz, menina! Aliás, te faz infeliz. Largue de uma vez, o salário não vale isso!” Eu riria dela, ainda soubesse que tinha razão. E soltaria um vago “Vou ver, prometo”. E a Taís nova ainda se reconheceria ao ver toda a ansiedade que rodeia meu pensamento, comum a nós duas. Caçoaria das pernas que continuavam balançando naquele ritmo ansioso e da mania infeliz de pensar demais sobre o que fazer. Talvez, num rompante mais maduro, repetiria aquilo que sempre disseram as duas: “Às vezes é preciso deixar a vida acontecer no seu próprio ritmo…”. E sim, as duas concordariam que essa era uma das coisas que jamais aprenderam. Mas o mais bonito seria o fato da adolescente reconhecer na jovem um certo semblante de tristeza, talvez um pouco de rabugice. “É da idade, sabe?”. Ela retrucaria, em tom bravo: “Mas ‘taí uma coisa que você jamais devia ter desaprendido: always look on the bright side! E dessa maneira, esse sorriso não deve ser apagado.” E lhe daria o sorriso homônimo, surpreendente sábio, enquanto descesse do ônibus, deixando a sua versão mais velha perdida em pensamentos. E quase perdendo o ponto da Esplanada.

E nesse dia ela foi capaz de reparar as flores que desabrochavam nas calçadas de concreto e as árvores barrigudas pintadinhas de roxo, de tantos brotos! Ficou feliz por ter sobre sua cabeça o céu de cor cinza, prenúncio da chuva que tanto lhe alegrava no planalto central. Agradeceu pelo prazer do ventinho no rosto, do suco que esperava tomar com um amigo naquele dia e pelos desafios que tinha pela frente – que lhe fariam mais sábia e feliz, sim.

E o mau humor foi embora. Coisa engraçada.Algumas das velhas coisas sempre valem o resgate.

E chegou março

Oh, Gódi. Porque ela foi me lembrar? Eu podia muito bem manter minha vida completamente apartada dos problemas de uma formanda. Mas a chegada desse mês torna oficial o meu status, a partir de 16 de março. Eu não posso mais evitar meu orientador, nem as idas a campo (ai, jesus, será que eles ainda me querem), nem a pilha de livros que estão encostadas na estante, nem aprender a fazer pesquisa?

A partir de hoje, sou uma pessoa ainda mais surtada. E dramática realista. Graaaandes emoções me aguardam. As escrita e defesa de monografia e encontros de familiares imísciveis.

God help us. E vocês vão ter que aturar tudinho.