Eu nasci na época errada

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, diz o rifão. Nem verde e nem maduro demais. O fruto deve ser comido assim que chega ao estado de maturação. (…) A fervura faz-lhes perder a vitalidade das vitaminas. É por isso que se devem açucarar bastante os doces em calda (compota), para compensar as propriedades perdidas com a cozedura.

Texto da edição de 1944 do livro de culinária Dona Benta

E a gente tem que aguentar toda essa baboseira “zero açúcar”.

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Sobre a mesa

Um telefone sem fio irritado por estar fora de sua base. Sempre imagino um senhorzinho temperamental e burocrático quando observo seus reclames sonoros. Do outro lado, uma fruteira improvisada, um cacho de bananas empretecendo, resignado, e duas maçãs bonachonas. Elas sabem que viram bolo antes das bananas, pela preferência da cozinheira. E dão aquele meio sorrisinho de pretensão. Os restos do café da manhã também estão lá. Três pratos diferentes, um resto de pão torrado e cascas de melão. Dão aquele cheiro cítrico gostoso no ar… ao lado do copo de suco de laranja. Industrializado. A moça acha que fazer suco de laranja dá muito trabalho. A mini-samambaia parece feliz. Molhadinha, verdinha, enroscadinha. Coisa impossível de acontecer a alguns meses atrás. Mas eis que algumas manias virginianas são contagiosas. Um pendrive esquecido, um grampo de cabelo, um roupão jogado, um notebook ligado.

É uma mesa grande. 2 metros por 1. Feita de portas velhas de armário, comprada por uma pechincha, ainda veio com dois bancos. Jeito de se sentir na roça dentro da sala de uma kitnet de 40m². Ainda é muito. Sob a mesa, uma toalha estampada, sempre meio limpa e meio suja.

E à sua frente, uma moçoila num pijama improvisado, de casacos e meias, procrastinando a leitura de um texto vindo escrever no blog. Porque acordou assim, literária.

Uruguay e otras cositas más

Cheguei de casaco, num dia el sollindo, depois de um breve voo sobre campos verdes de cerquinhas brancas e casas de estilo europeu. Na bolsa, chocolatinhos do freeshop. O primeiro nativo que vi tinha bigode de morsa e uma feição de burocrata. Foi ele quem carimbou meu papel da imigração. A gente tem essa crença de que portunhol é mais do que suficiente. De primeira, não consegui nem empreender um diálogo com a moça uruguaia do outro freeshop. E ela só queria meu “documento”.

Mas aí veio o Fiat 147 e a família da boa amiga. As coisas ficaram melhores. Apesar da brisa que anunciava os 11ºC. Especialmente depois de uma tortinha de massa folhada [aliás, massa folhada uruguaia é de Deus]. E de meias. As ruas são lindas. Muitas árvores e casas antiguérrimas. De alguma maneira, me lembrou São Paulo. Queria tirar foto de cada sacada, todos os detalhes rococós. E do pessoal com seus mates. Porque, é verdade, todos tomam. E toda hora. A plaquinha no ônibus avisando que é proibido tomar mate ali dentro não é por nada. O povo até burla o negócio. Mas achei bem engraçado.

Na rambla, estava o mar. Que não é mar. Mas é um rio grandão. Até Yemanjá dá seu ar da graça por lá. E aí comemos torta frita. E pastel de doce de leite. E o melhor de todos: churros de dulce de leche. Num trailler que parecia bastante reprovável. Mas, como é comum nesses lugares, foram os melhores churros que já comi na minha vida – batendo até memórias infantis dos churros na porta do colégio Pernalonga. Aliás, vale dizer, se você é paranóico com higiene e comida, evite o Uruguai. E a Argentina. Talvez toda a América Latina. Essa história de usar luvas e touquinhas é coisa de brasileiro paranóico. Qual o problema de pegar seu troco, coçar a cabeça e entregar seu churro com a mesma mão? Não seja enjoado. Vale a pena.

Digamos que eu fui atração. Me senti como os gringos de Salvador. Negra, cabelos crespos, alta, usando roupas estampadas e falando português. No mínimo, caricato. De início, me incomodei… mas aí a gente se acostuma. E acha até graça. As pessoas são ótimas. Cada vez que precisávamos de uma informação, todos nos ajudavam. Elas sorriem. Dão bom dia. E você repara ainda mais se é um brasiliense carente. E, tadã. Cá está uma, que abria um sorrisão pra todos aqueles que eram cordiais.

Tristán Narvaja é uma experiência de vida. Coelhinhos e cachorrinhos ao lado de alfaces e morangos, cacarecos de todos os tipos mais à frente, antiquários, talheres antigos (não resisti à uma faca de bolo), jóias, fitas k7, roupas. É uma mistura de 25 de março, com Feira do Paraguai, Feira do Guará e do Rolo. Eu queria morar lá. Mas tínhamos que correr pra comer um ravióli uruguaio feito pela avó Muguruza, que tem ares italianos. Queria trazer todas aquelas massas frescas e deliciosas pra casa. Aliás, os presuntos e queijos também. Mais tarde, me apaixonei pelos bizcochos. Com muito doce de leite que, afinal, também é o melhor de todos.

Punta del Este é, no mínimo, linda e cômica. E no frio se desnuda. Fui à praia de cachecol pela primeira vez. É engraçado ver as grandes construções, o Cafonrad, os preços absurdos e muitas lojas fechadas porque é inverno. Mas. caramba, é uma das praias mais lindas, mesmo. E tem leões marinhos goooordos e dorminhocos. E a Casapueblo.

punta ballena, por mim mesma

Tirei um milhão de fotos. Passeamos nas livrarias de Montevidéu. Livro de comida francesa tinha, mas livro de comida uruguaia só um. Com as piores fotos já tiradas. Mas um “Alimentación e Cultura” veio pra casa. Comi a maior milanesa do mundo. Duas vezes, em dois lugares diferentes. E ver limão siciliano ser espremido como o nosso tahiti foi um pouco estranho. Um sentimento maternal quase tomou conta de mim. Mas passou. 😛

Dancei Ivete Sangalo numa boatinha. Aparentemente, sertanejo e funk também são muito famosos por lá. Ouvi “Mila” em espanhol – a risada foi incontrolável. Teve risada em hora imprópria, mas depois veio o candombe e eu nem liguei mais. Sentei na grama, dei as mãos e participei até do ritual antropológico. Boa mocinha.

O Fórum não foi lá essas coisas. Discussões lugar comum demais, desorganização, atraso. Mas foi bom conhecer gente da Colômbia, Chile, México e me sentir um pouco mais parte da América Latina. Sempre fico com a impressão de que somos nós, brasileiros, que estamos à parte. O que não tem a ver apenas com a língua. E lá, me senti integrada. Apesar da imensa dificuldade [talvez um pouco de resistência] de entender o português.

Saí com aquela sensação clichê.

“Como el Uruguay, no hay”. E me sentindo um cadinho cosmopolita. 🙂