Uma promessa de ano novo

No final de agosto.

Talvez sejam os 24. Que eu nunca lembro que são 24. Mas dizem por aí que idade é sabedoria… um pouco mais de paciência, persistência, calma e não sei mais o quê.

No dia do tal ano novo, eu estava sozinha em uma casa de praia, com as minhas duas cachorras, um livro e o silêncio da distância da praia e dos fogos de artifício. Eu me senti bem. Pela desobrigação de pular sete ondinhas, dar o primeiro beijo de 2011, achar que tudo ia ser melhor e colocar um sorriso no rosto. Porque o relógio anunciava um minuto a mais. Eu tenho dificuldade de lidar com rituais de passagem. Eu sou ranzinza, do alto dos meus poucos 24 anos. O fato é que, assim, eu não me prometi nada. A despeito de estar usando uma calcinha amarela pra trazer dinheiro.

Eu lembrei de outros anos novos. Da vez em que, quando ainda não tinha sido beijada, comi 7 uvas para fazer 7 pedidos e guardar as 7 sementes na carteira durante o resto do ano. Junto com uma prima e as amigas mais velhas dela, todas riram dos meus olhos pedindo um namoradinho e uma beijoca. Me senti tola com a lembrança. Mas a gente não pode negar o que foi, certo? Pelo menos nisso eu acredito. Em outro ano, eu estava escrevendo no meu diário. Raivosa. Chateada com a incompreensão da minha família. Marquei a folha com tanta força que rasguei –  e então percebi a intensidade que o meu próprio drama tem pra mim. E mudou? Anos depois, cá estou eu, chorando num turno e saltitando no outro. Incoerência sentimental é modo de vida.

E toda essa divagação pra dizer que, em agosto, eu achei que merecia uma promessa. Eu me devia uma promessa. E uma promessa pro mundo. Eu gosto de dar um tom grandioso pras minhas coisas. Sim, sim.

A verdade é que eu fiz Ciências Sociais. Convivi com tanta gente ativista, li tantas coisas desconstruindo o mundo e as regras, ao ponto de naturalizar ideias que, oi, filhota? Não foram naturalizadas. A despeito de ser considerada reacionária pelos coleguinhas hardcore, eu tenho uma dificuldade imensa de lidar com gente reacionária. Baseada no currículo básico: gente machista e/ou racista e/ou que lê Veja e acredita e/ou homofóbica e/ou acredita numa sociedade meritocrática.

Mas, veja bem, esse é, deixa eu pensar em porcentagens, 80% do mundo. E a gente tem que lidar com essas pessoas o tempo inteiro. Eu, particularmente, encrespo. Encrespo de um jeito horrível. Eu sou agressiva, é a verdade. Não dou conta de discutir, desisto no início. Namorido, uma das pessoas mais diplomáticas que eu conheço, sempre tenta dar uma de advogado do diabo, com seus “Você tem que entender que as pessoas tiveram experiências diferentes da sua”. Mas eu respondo logo, como uma criança emburrada: “Eu não tenho que entender nada”. E não quero lidar com o mundo. De saída.

Taisinha é uma implicante, já diria minha mãe. Ou minha tia. Ou qualquer outra pessoa que me conheça muito. É mais fácil ser assim, afinal. É todo mundo chato e eu quero ir pra casa. Mas não pode ser tudo do jeito que a gente quer, certo? Agora eu trabalho. Com sete pessoas, numa sala. Durante 8 horas por dia. Pessoas que pensam de um jeito completamente diferente do meu jeito. Do jeito que eu odeio, na verdade. E, claro, eu já tive pequenas discussões sobre assuntos da vida que me são caros. Naturais. É mais fácil tentar fugir. Eu tenho fones de ouvido e as rádios da internet. Mas isso não funciona 40 horas por semana. Assim, me corrôo. Fico doente, mal-humorada, tenho dores no estômago e nas costas. Porque somatizar é a lei.

A promessa ano novo, de vida é  ser MAIS BRANDA. Mais paciente, mais tolerante, talvez até mais calma. Afinal, eu não tenho mais 14 anos.

É diferente de aceitar. É lidar de modo diferente. É respirar um pouco antes de explodir, de discordar. É tratar o mundo de outro modo.