À Dona Cenira

Era uma cozinha bege, escura, porque não tinha janelas. Estreita, sem jeito, mas ela se virava muito bem dentro dela. Eu era muito curiosa, e ela não tinha lá muita paciência, mas sempre me ajeitava em um banquinho, descascava uma cenoura com o miolo bem alaranjado, e eu comia enquanto brincava de ser coelho. Mas tinha que ficar muito quietinha. “A cozinha é um lugar perigoso”, dizia ela, “você pode se queimar ou se cortar, então tem que ficar sentadinha aí”. Eu obedecia, a maior parte do tempo, porque gostava de ver o que ela fazia.
Como lavava o arroz, “porque carioca faz arroz é escorrido, muito mais fácil”, e depois jogava em uma panela velha com água fervendo. Como descascava tantos, tantos legumes,  e como eu gostava de assistir a destreza de suas mãos morenas, calejadas e hábeis de tanto serviço doméstico feito na vida, pra família e pros outros. Ela sempre me contava várias das suas histórias, e eu gostava tanto de ouvi-las. Como as madrugadas que trabalhou em uma casa de família em um bairro nobre do Rio de Janeiro, fazendo petiscos pro filho do patrão, que levava os amigos pra jogar baralho durante a madrugada inteira. Eles iam acordá-la no quarto. “Mas a gente não reclamava, minha filha, porque eles avisavam sobre isso antes da gente pegar o serviço”. Ah, vó, ainda bem que as leis trabalhistas são outras! Ou da outra vez que, recém-chegada na capital, foi parar em um terreiro de candomblé, e em uma roda de trabalho, tinha que pegar uma corda e amarrar um nó pensando em alguém que não gostava. Mas ela não desgostava de ninguém! Acabou dando o nó mesmo assim. Resultado: “amarrei o anjo da guarda, minha filha!” E chorou dias a fio sem saber porque. Gostava de contar também, com orgulho, sobre como tinha se virado durante o período de pobreza, que nunca passaram fome porque ela economizava cada centavo e todo saco de comida que tinha em casa. “Certa feita”, diria ela, “o irmão de seu avô apareceu lá em casa com toda a família para almoçar. Era sempre assim, no dia do pagamento dele, ele gastava tudo, minha filha! Mandava comprar pernil, carne, frango, fazia aquele banquete. No resto do mês, não tinha o que comer, porque ganhava pouco. E eu tinha que me virar pra dar conta daquele tanto de gente, porque não podia fazer essa desfeita”. E ela falava de suas artimanhas, como, naquele dia, tinha feito um pacote de macarrão, desfiado a carne assada que antes só dava pra quatro e colocado um monte de tomate pra render a carne e fazer um monte de molho pro macarrão. Todo mundo comeu. Se refestelou! “No fim, minha filha, ele ainda olhou pra mim e disse que achava que a gente era rico!”. E a senhora gargalhava gostoso…  E eu ria junto, sem entender bem, mas gravando as histórias na memória sem perceber.

Era dali que também saíam os docinhos de aniversário. Fazer em casa, afinal, é a melhor economia que existe! “E dinheiro vale muito, minha filha!”, dizia, sabiamente. Vovó enrolava os brigadeiros e beijinhos, fritava coxinha, e assava o melhor bolo de aniversário do mundo: seu rocambole recheado com brigadeiro. Eu era uma criança obcecada. E ela reclamava porque só queria esse. Mas sempre fazia pra me agradar.

De sua frigideira saiu todo arroz com ovo e purê de batata que uma menina é capaz de comer. Porque eu não gostava de frango. Nem de peixe. E ela fazia um pratão pra compensar. “Porque você é tão magrinha, minha filha!”. E Cremogema. Suflê de legumes – que, claro, tinha outro nome. Macarrão com muito ketchup (que ela botava água pra render). Mas nunca, absolutamente, ninguém saiu com fome. Mas, com certeza, 90% saía empanturrado.

Enquanto mexia nas panelas, e conversava com as visitas, porque ela sempre tinha que passar um café, ou fazer um suco de maracujá, ou assar o pão que guardava no congelador para uma eventualidade, todo mundo se espantava quando ela dizia a idade. Ela sorria, embevecida, e dizia que é porque comia verdura e andava reta. E hoje eu penso: sem anti-age, trabalhando uma parte da vida na roça, pegando sol sem protetor. É, vó, você tá certa.

Foi naquela cozinha que a minha avó foi construída pra mim. Ali, ela era a dona do mundo, capaz de coordenar tudo com perfeição. Foi capaz de alimentar duas gerações de sua família. De comida gostosa, de histórias, de alegria, de sonhos, de amor. Apesar de nem gostar de cozinhar. E isso mostra o quanto ela se doou pra gente. Como ela é linda.

E, hoje, a despeito de parecer apagada pelo Alzheimer, pelas confusões sobre o tempo, achei que era válido lembrar de quem ela é. Pra ela. Pra nós. Porque uma grande mulher como essa é incapaz de ser esquecida.

Obrigada por ser quem você é, vó.

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