Sobre comerciais de margarina

E aí, estava eu pensando como tenho medo e curiosidade em relação à gente perfeita. Deixa eu explicar. Partindo do princípio de que existem estereótipos muito bem mantidos sobre a mulher ideal, o homem ideal e a família heterossexual-cristã-perfeita, eu tenho medo de todas as pessoas que se pareçam com eles.
Fico intrigada diante das mocinhas de pele alva e perfeita, cabelo cuidadosamente liso e sem frizz com suas luzes louras magicamente distribuídas no cabelo longo, roupas cuidadosamente passadas e de acordo com os ditames da moda, corpo esguio e peitos grandes, andando, sem titubear, em seus sapatos de salto agulha e bolsa Louis Vuitton (ou coisa que o valha). Diante de tanta perfeição, fico pensando sobre coisas idiotas, em tom irônico, como: “Nossa, deve ser barra pra ela arrotar” ou “Nossa, ela tem que ser malvada por trás desse sorriso”. Fico pensando em como ela deve ser cruel com a empregada (escrava) negra que passa suas roupas e corta a frutinha no café da manhã.
Olho o cara de cabelos lisos perfeitamente cortados, sapatos impecavelmente engraxados, sorriso claro e pinta de bem sucedido em seu carrão de último modelo. Mais uma vez, penso em como ele deve ser um machista escroto que acha que todas as mulheres devem cair a seus pés e suportar todo tipo de violência que sua vontade desejar e exigir. E como lhe é permitido enganar e machucar, simplesmente porque há outra mulher esperando por ele, se você não aguentar. Porque há o tipo de machismo ensina isso para as mulheres: aguente qualquer coisa, homens são assim mesmo. E vão lhes considerar sensacionais só porque pagam as contas. É triste. É medíocre, é doloroso, é horrível. Elas são vítimas dessa lógica. E o povo ainda acha graça das piadinhas sobre o tema.

Assim como os casamentos que custam seis dígitos, que as pessoas passam anos pagando, apenas para que as uniões pareçam perfeitas. Sempre penso no enlace triste que advém daí. Topos de bolo com homens acorrentados me dão essa impressão imediatamente.

É simples: não acredito que alguém consiga se manter em uma aura de tamanha perfeição.  Podem chamar de despeito. Eu não ligo. 😉 Talvez alguns digam que é uma forma de lidar com as minhas imperfeições, de maneira cômoda. Eu diria que é uma forma de lidar com a realidade. Porque, acredite, a perfeição não existe.

E as pessoas continuam desenvolvendo gastrites, cânceres, anorexias, bulimias e afins tentando persegui-la. Não é justo.