Projeto #lightporranenhuma

Bom, entre os meus mil projetos para esse ano, está uma reeducação alimentar. Não, eu não gosto da palavra dieta. Deixa eu explicar melhor antes de detalhar meu projeto.

Eu adoro cozinhar e comer, isto é um fato. Além de Taís, pode chamar de #crazycooklady. O que eu prezo em uma comida, acima de qualquer coisa, é o gosto. E por isso, não importa exatamente os ingredientes – mas importa a qualidade deles e a execução de quem faz. Ademais, eu não acredito que não gosto de determinada coisa, em específico, mas de que não gosto do modo com o qual foi preparada. Eu, como a Ana Elisa (ídola), acredito na conversão alimentícia das pessoas. Mas também não forço ninguém à nada, se alguém decide que não gosta, não há muito o que fazer a respeito.

Ainda temos o fato de que o mundo, que sempre foi doido, agora tenta me convencer que eu preciso usar 34 pra ser feliz. Em um tempo em que os médicos reduzem cada dia mais a taxa normal de colesterol, pra me forçar a tomar remédios para ser saudável, que os nutricionistas querem me convencer que os alimentos feitos pela indústria são sensacionais para a minha saúde, de maneira completamente desinteressada, e que o meu IMC me coloca em uma grau de obesidade nível 2. Bom, eu acho tudo isso muito ridículo. Me chamem de louca da teoria da conspiração, mas acho que o padrão de saúde do século XXI é uma feliz combinação da indústria alimentícia, de remédios e os profissionais da saúde e da nutrição. Palhaçada.

Bom, ao mesmo tempo, gostar do gosto de comida faz você observar determinadas coisas. Comida industrializada costuma ter gosto ruim. Os sabores artificiais criados não chegam nem a 10% do que seria morango de verdade, banana de verdade, chocolate de verdade. E pra que nenhum sociólogo venha puxar meu pé, não posso esquecer que gosto é gosto. E eu não estou aqui falando que todo mundo tem que gostar do que eu gosto. Mas no dia em que experimentei gelatina feita com suco de fruta, mesmo, registrei que gelatina de caixinha não é pra mim – e incentivo outras pessoas a fazerem o mesmo. No dia em que provei chocolate sem tanto aditivo ou conservante e mais cacau, entendi que chocolate pode ser tão melhor. E aí virou um caminho sem volta pra mim.

Entretanto, a verdade é que é bem mais fácil se deixar levar. Chegar tarde do trabalho e abrir um pacote de biscoito, ou passar no drive-thru do McDonald’s (afinal de contas, a Subway não percebe o nicho de mercado que está perdendo!) ou tomar um suco de caixinha na esperança de que seja melhor que um refrigerante. Ou se recompensar com aquela sobremesa maravilhosa, aquela batatinha frita deliciosa do bar ou aquela massa feita com molho branco e todos os queijos do mundo. E aí, a balança fica naquele vai e vem e você vai deixando simplesmente pra lá.

E aí decidi que ia parar. Que ia seguir o que eu tanto digo que acredito, mas que não executo com a frequência. Que minha alimentação seria, finalmente, tudo que defendo. E, bom, emagrecer vem como consequência de parar com excessos. Mas não é um imperativo ou um objetivo pra que eu fique linda. Eu sou linda. 😉 Eu só quero ser saudável e continuar comendo manteiga, batatinha frita e creme de leite fresco – e sem nada light e nem diet, ou shake, ou pílula, ou anfetamina ou coisa que o valha!

Por isso, para 2013, os princípios da #crazycooklady:

1. Não coma nada que sua avó não reconheceria como comida.

2. Evite comidas contendo ingredientes cujos nomes você não possa pronunciar.

3. Não coma nada que um dia não possa apodrecer.

4. Evite produtos alimentícios que aleguem vantagens para sua saúde.

5. Dispense os corredores centrais dos supermercados e prefira comprar nas prateleiras periféricas.

6. Melhor ainda: compre comida em outros lugares, como feiras livres ou mercadinhos hortifrutis.

7. Pague mais, coma menos.

8. Coma uma variedade maior de alimentos.

9. Prefira produtos provenientes de animais que pastam.

10. Cozinhe e, se puder, plante alguns itens de seu cardápio.

11. Prepare suas refeições e coma apenas à mesa.

12. Coma com ponderação, acompanhado, quando possível, e sempre com prazer.

(POLLAN, Michael. Em defesa da comida. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2008. 272p.)

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As coisas vão se acertando, sim

556654_10151216977585972_897101095_nE cá estou eu querendo escrever, querendo falar, querendo fazer, querendo viver de novo. 2012 foi um ano letárgico, em que mesmo as coisas infinitas que vivi acabaram um pouco embaçadas. Esse ano eu quero comprar uma casa, mudar de emprego, escrever artigos sobre assuntos vários que estão na minha cabeça, dar conta da minha reeducação alimentar, deixar crescer o cabelo, simplificar as coisas. E viver tudo ao máximo. Parece uma coisa besta de ritual de início de ano, mas quando comparo com o início do ano passado, a proposta é completamente diversa.  É como se eu quisesse viver dois anos em um. Mas sem cobrança, o que é fantástico.

A Pollyana boboca que existe em mim tá ligada no máximo. E por mais que eu ache ela besta, estou deixando.

Vâmo que vâmo!

Indo e vindo

É nisso que consiste um blog meu nos últimos cinco anos. Mas resiste uma vontade de falar. De me escrever em linhas longas, escritas de forma mais ou menos espontânea. Como se me escrever fosse me entender. Talvez tenha tudo a ver com o fato de que eu ganhei um caderninho cor de rosa com cadeado a uns quinze anos atrás, dado por minha querida madrinha que queria me ajudar de alguma maneira. E acabou me ensinando que escrever e guardar era uma forma de me acalmar. A feminista em mim não consegue deixar de pensar no porquê meu irmão não ganhou um também. Meninas tem de se guardar em lugares escondidos. Enfim, talvez seja só bobagem.

Mas o fato é que sim, talvez escrever me acalme e me faça entender. O que também talvez signifique que eu tenha vivido um pouco de incompreensão e estranhamento nos últimos anos. Veja bem, da forma que olho agora, tem um pouco a ver com as nossas convicções da adolescência. Eu, como todos outras e outros, era do tipo complicado. Esbravejava certezas e podia jurar que carregaria elas pra vida. Lembro como todos riam à minha volta. Apesar de achar que não, não as carrego mais comigo, entendo como as risadas complicavam ainda mais as coisas. E como sim, todas as verdades foram importantes para me fazer agora. Usar um gorro preto e ser mal-humorada são partes do processo taisante.

De repente, nos vinte-e-poucos, a gente tem outras urgências. Tem que trabalhar pra viver, por exemplo, e estar em uma das cidades mais caras do país aceleram o processo. Pelo menos pra mim, a vida foi desacelerando, mas a verdade é que talvez ela nunca tenha sido tão rápida. As festinhas da faculdade vão virando uma coisa meio festa-estranha-com-gente-esquisita e a sua casa vai ficando cada vez mais confortável – afinal de contas, agora eu me preocupo com ela. O fato é que eu sempre fui muito caseira, mas tem aquela coisa de ser cool  e interagir. Eu sempre fui velha, é um fato, a diferença é que aos vinte-e-poucos eu não me envergonho mais. Rá.

E, diante de outras urgências, a história de falar de mim foi ficando de lado. Com mestrado e trabalho, tudo que eu queria era dormir no tempo vago. Mas o fato é que na verdade eu não me organizava mais. Mas uma parte de mim sente falta de se ordenar e de escrever. Porque sabe que este exercício se acalma. Pode parecer bobagem ritualística, mas taí uma proposta pra 2013. Não importa se eu tenho que estudar para todos os concursos do mundo. Se eu não escrever, as coisas vão passando, a vida vai passando e a minha parte que desejava registrar-tudo-sem-parar vai perdendo o que viveu.

Uma promessa de ano novo

No final de agosto.

Talvez sejam os 24. Que eu nunca lembro que são 24. Mas dizem por aí que idade é sabedoria… um pouco mais de paciência, persistência, calma e não sei mais o quê.

No dia do tal ano novo, eu estava sozinha em uma casa de praia, com as minhas duas cachorras, um livro e o silêncio da distância da praia e dos fogos de artifício. Eu me senti bem. Pela desobrigação de pular sete ondinhas, dar o primeiro beijo de 2011, achar que tudo ia ser melhor e colocar um sorriso no rosto. Porque o relógio anunciava um minuto a mais. Eu tenho dificuldade de lidar com rituais de passagem. Eu sou ranzinza, do alto dos meus poucos 24 anos. O fato é que, assim, eu não me prometi nada. A despeito de estar usando uma calcinha amarela pra trazer dinheiro.

Eu lembrei de outros anos novos. Da vez em que, quando ainda não tinha sido beijada, comi 7 uvas para fazer 7 pedidos e guardar as 7 sementes na carteira durante o resto do ano. Junto com uma prima e as amigas mais velhas dela, todas riram dos meus olhos pedindo um namoradinho e uma beijoca. Me senti tola com a lembrança. Mas a gente não pode negar o que foi, certo? Pelo menos nisso eu acredito. Em outro ano, eu estava escrevendo no meu diário. Raivosa. Chateada com a incompreensão da minha família. Marquei a folha com tanta força que rasguei –  e então percebi a intensidade que o meu próprio drama tem pra mim. E mudou? Anos depois, cá estou eu, chorando num turno e saltitando no outro. Incoerência sentimental é modo de vida.

E toda essa divagação pra dizer que, em agosto, eu achei que merecia uma promessa. Eu me devia uma promessa. E uma promessa pro mundo. Eu gosto de dar um tom grandioso pras minhas coisas. Sim, sim.

A verdade é que eu fiz Ciências Sociais. Convivi com tanta gente ativista, li tantas coisas desconstruindo o mundo e as regras, ao ponto de naturalizar ideias que, oi, filhota? Não foram naturalizadas. A despeito de ser considerada reacionária pelos coleguinhas hardcore, eu tenho uma dificuldade imensa de lidar com gente reacionária. Baseada no currículo básico: gente machista e/ou racista e/ou que lê Veja e acredita e/ou homofóbica e/ou acredita numa sociedade meritocrática.

Mas, veja bem, esse é, deixa eu pensar em porcentagens, 80% do mundo. E a gente tem que lidar com essas pessoas o tempo inteiro. Eu, particularmente, encrespo. Encrespo de um jeito horrível. Eu sou agressiva, é a verdade. Não dou conta de discutir, desisto no início. Namorido, uma das pessoas mais diplomáticas que eu conheço, sempre tenta dar uma de advogado do diabo, com seus “Você tem que entender que as pessoas tiveram experiências diferentes da sua”. Mas eu respondo logo, como uma criança emburrada: “Eu não tenho que entender nada”. E não quero lidar com o mundo. De saída.

Taisinha é uma implicante, já diria minha mãe. Ou minha tia. Ou qualquer outra pessoa que me conheça muito. É mais fácil ser assim, afinal. É todo mundo chato e eu quero ir pra casa. Mas não pode ser tudo do jeito que a gente quer, certo? Agora eu trabalho. Com sete pessoas, numa sala. Durante 8 horas por dia. Pessoas que pensam de um jeito completamente diferente do meu jeito. Do jeito que eu odeio, na verdade. E, claro, eu já tive pequenas discussões sobre assuntos da vida que me são caros. Naturais. É mais fácil tentar fugir. Eu tenho fones de ouvido e as rádios da internet. Mas isso não funciona 40 horas por semana. Assim, me corrôo. Fico doente, mal-humorada, tenho dores no estômago e nas costas. Porque somatizar é a lei.

A promessa ano novo, de vida é  ser MAIS BRANDA. Mais paciente, mais tolerante, talvez até mais calma. Afinal, eu não tenho mais 14 anos.

É diferente de aceitar. É lidar de modo diferente. É respirar um pouco antes de explodir, de discordar. É tratar o mundo de outro modo.

E a gente vai se encontrando no meio do caminho

O mundo

Eduardo Galeano

Um homem da aldeia de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir aos céus. Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas.
  —  O mundo é isso — revelou —.
Um montão de gente, um mar de  fogueirinhas. Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo.