Bobices – 1

Eu tenho essa mania incrível de achar que tenho que ficar me explicando pros outros. Talvez tenha a ver com alguma parte de uma infância de criança solitária na escola, desesperada para fazer amigos. Não sei.
Em que medida adianta, finalmente? As pessoas tem imagens tão concretas sobre a gente, às vezes, que você acaba gastando seu tempo numa batalha perdida. “Olha, não sou menininha! Não sou feminazi! Não sou elitista! Não sou revolucionária! Não sou!”. Se as pessoas não dão conta de captar, é melhor deixar pra lá. Muitas vezes, o problema é com elas, mesmo. Pode ser com você, também. Mas se explicar não leva a nada.
Uns acham que sou revoltada demais. Que discordo de coisas bobas, como preconceitos de gênero ou desigualdade social, enfim, coisas que acho que são essenciais para pensar a vida no planeta e seu lugar nele. Outros vão achar que sou acomodada, porque trabalho no governo, porque não concordo com todos os ditames marxistas, porque não seguro qualquer bandeira da revolução. Vão achar que eu não tenho opinião crítica e que só quero ganhar dinheiro e ter uma vida confortável. Paciência. Pra que se ocupar disso?
Só faz a gente ficar mais paranóica enquanto a vida vai passando.

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“Dreamer, you know you are a dreamer
Well can you put your hands in your head, oh no!
I said dreamer, you’re nothing but a dreamer
Well can you put your hands in your head, oh no!
I said: “far out- what a day, a year, a life it is!”
You know – well you know you had it comin’ to you
Now there’s not a lot i can do (…)”

Sobre uma manhã qualquer de 2013

Eu levanto cedo, antes dele, e gosto de vê-lo dormir. Aquele sono fundo, o cabelo enrolado emaranhado no lençol e de vez em quando um ronco – uma cena que sempre tira um sorriso do meu rosto. Sempre enrolo os dedos nos cabelos cacheados dele. Ele me dá um meio sorriso, vira de lado e volta a dormir. Ao colocar os pés fora da cama, tenho que ter cuidado. Uma cadela de pelos profundamente negros estará ao lado da cama, com certeza. Me abaixo e lhe faço um carinho nas orelhas, ao que me responde com um resmungo e uma lambida, e sei que ela também permanecerá lá quando me levantar e vestir o roupão. O dia é frio, e penso que poderei usar minhas queridas pantufas, enquanto tento me lembrar de tudo que tenho que arrumar antes de ir ao trabalho. 

Quando chegar ao corredor, o segundo cachorro sairá debaixo da cama e virá se espreguiçar nos meus pés, abanando o rabo e pedindo um afago. Sento no chão e deixo que se esfregue em mim, enquanto escuto o barulho da chuva nas janelas do apartamento antigo. O cachorro irá me seguir enquanto pego os potes para acondicionar as marmitas, e deitará no pé do fogão enquanto penso em que refeição matinal se aplica à minha dieta. Lá dentro, o despertador tocará pela segunda vez, e logo virá um marido meio amassado para me abraçar.

“Bom dia, linda” – enquanto cheira meu pescoço.

Enquanto ele arruma a geladeira, eu o observo e penso como gosto dessa vida. Da casa e de nossos cachorros, da cozinha espaçosa e das plantas na janela. E nem queimar as bananas que estava fazendo pra acompanhar o cuscuz, ou os cachorros que insistem em implicar um com o outro ou o fato de esquecemos os dois guarda-chuvas no carro me fazem tirar esse sorriso meio besta do rosto.

2012

Ai, 2012. Você foi tão difícil pra mim. Eu fui tão difícil pra você.

Eu achei que estava no controle das coisas. Que janeirofevereiromarçoabrilmaiojunhojulhoagosto e até setembro fossem durar mais. E eles não duraram menos. Eu durei menos. Fiz tão menos coisas. A gente precisa culpar coisas e pessoas. Mas não há culpados. A culpa está em mim e me paralisa. Há tanto tempo.

E quando tudo parece muito pior, eis que eu resolvo me levantar e me propor. As coisas acontecem de um jeito muito engraçado. Tudo anda tão pesado, tão pressionado, tão turvo. E eu dando jeito de andar no meio disso tudo agora, só agora.

Atenção ao dobrar uma esquina
Uma alegria, atenção menina
Você vem, quantos anos você tem?
Atenção, precisa ter olhos firmes
Pra este sol, para esta escuridão
Atenção
Tudo é perigoso
Tudo é divino maravilhoso
Atenção para o refrão
É preciso estar atento e forte
Não temos tempo de temer a morte…