“Dreamer, you know you are a dreamer
Well can you put your hands in your head, oh no!
I said dreamer, you’re nothing but a dreamer
Well can you put your hands in your head, oh no!
I said: “far out- what a day, a year, a life it is!”
You know – well you know you had it comin’ to you
Now there’s not a lot i can do (…)”

As coisas vão se acertando, sim

556654_10151216977585972_897101095_nE cá estou eu querendo escrever, querendo falar, querendo fazer, querendo viver de novo. 2012 foi um ano letárgico, em que mesmo as coisas infinitas que vivi acabaram um pouco embaçadas. Esse ano eu quero comprar uma casa, mudar de emprego, escrever artigos sobre assuntos vários que estão na minha cabeça, dar conta da minha reeducação alimentar, deixar crescer o cabelo, simplificar as coisas. E viver tudo ao máximo. Parece uma coisa besta de ritual de início de ano, mas quando comparo com o início do ano passado, a proposta é completamente diversa.  É como se eu quisesse viver dois anos em um. Mas sem cobrança, o que é fantástico.

A Pollyana boboca que existe em mim tá ligada no máximo. E por mais que eu ache ela besta, estou deixando.

Vâmo que vâmo!

Não esqueça de ser infinito

I guess we are who we are for a lot of reasons. And maybe we’ll never know most of them. But even if we don’t have the power to choose were we come from, we can still choose where we go from there. We can still do things. And we can try to feel okay about them (…) You have to do things. I’m going to do what I want to do. I’m going to be who I really am. And I’m going to figure out what that is. And we could all sit around and wonder and feel bad about each other and blame a lot of people for what they did or didn’t do or what they didn’t know. I don’t know. I guess there could always be someone to blame. It’s just different. Maybe it’s good to put things in perspective, but sometimes, I think that the only perspective is to really be there. Because it’s okay to feel things. I was really there. And that was enough to make me feel infinite. I feel infinite. – Stephen Chbosky – The Perks Of Being A Wallflower 

Tinha tempo que um filme não exercia tanto impacto sobre mim. Esse é o limite da nostalgia e da vida. É isso.

(e Hermione arrasa mega de cabelo curto)

Sobre uma manhã qualquer de 2013

Eu levanto cedo, antes dele, e gosto de vê-lo dormir. Aquele sono fundo, o cabelo enrolado emaranhado no lençol e de vez em quando um ronco – uma cena que sempre tira um sorriso do meu rosto. Sempre enrolo os dedos nos cabelos cacheados dele. Ele me dá um meio sorriso, vira de lado e volta a dormir. Ao colocar os pés fora da cama, tenho que ter cuidado. Uma cadela de pelos profundamente negros estará ao lado da cama, com certeza. Me abaixo e lhe faço um carinho nas orelhas, ao que me responde com um resmungo e uma lambida, e sei que ela também permanecerá lá quando me levantar e vestir o roupão. O dia é frio, e penso que poderei usar minhas queridas pantufas, enquanto tento me lembrar de tudo que tenho que arrumar antes de ir ao trabalho. 

Quando chegar ao corredor, o segundo cachorro sairá debaixo da cama e virá se espreguiçar nos meus pés, abanando o rabo e pedindo um afago. Sento no chão e deixo que se esfregue em mim, enquanto escuto o barulho da chuva nas janelas do apartamento antigo. O cachorro irá me seguir enquanto pego os potes para acondicionar as marmitas, e deitará no pé do fogão enquanto penso em que refeição matinal se aplica à minha dieta. Lá dentro, o despertador tocará pela segunda vez, e logo virá um marido meio amassado para me abraçar.

“Bom dia, linda” – enquanto cheira meu pescoço.

Enquanto ele arruma a geladeira, eu o observo e penso como gosto dessa vida. Da casa e de nossos cachorros, da cozinha espaçosa e das plantas na janela. E nem queimar as bananas que estava fazendo pra acompanhar o cuscuz, ou os cachorros que insistem em implicar um com o outro ou o fato de esquecemos os dois guarda-chuvas no carro me fazem tirar esse sorriso meio besta do rosto.

Indo e vindo

É nisso que consiste um blog meu nos últimos cinco anos. Mas resiste uma vontade de falar. De me escrever em linhas longas, escritas de forma mais ou menos espontânea. Como se me escrever fosse me entender. Talvez tenha tudo a ver com o fato de que eu ganhei um caderninho cor de rosa com cadeado a uns quinze anos atrás, dado por minha querida madrinha que queria me ajudar de alguma maneira. E acabou me ensinando que escrever e guardar era uma forma de me acalmar. A feminista em mim não consegue deixar de pensar no porquê meu irmão não ganhou um também. Meninas tem de se guardar em lugares escondidos. Enfim, talvez seja só bobagem.

Mas o fato é que sim, talvez escrever me acalme e me faça entender. O que também talvez signifique que eu tenha vivido um pouco de incompreensão e estranhamento nos últimos anos. Veja bem, da forma que olho agora, tem um pouco a ver com as nossas convicções da adolescência. Eu, como todos outras e outros, era do tipo complicado. Esbravejava certezas e podia jurar que carregaria elas pra vida. Lembro como todos riam à minha volta. Apesar de achar que não, não as carrego mais comigo, entendo como as risadas complicavam ainda mais as coisas. E como sim, todas as verdades foram importantes para me fazer agora. Usar um gorro preto e ser mal-humorada são partes do processo taisante.

De repente, nos vinte-e-poucos, a gente tem outras urgências. Tem que trabalhar pra viver, por exemplo, e estar em uma das cidades mais caras do país aceleram o processo. Pelo menos pra mim, a vida foi desacelerando, mas a verdade é que talvez ela nunca tenha sido tão rápida. As festinhas da faculdade vão virando uma coisa meio festa-estranha-com-gente-esquisita e a sua casa vai ficando cada vez mais confortável – afinal de contas, agora eu me preocupo com ela. O fato é que eu sempre fui muito caseira, mas tem aquela coisa de ser cool  e interagir. Eu sempre fui velha, é um fato, a diferença é que aos vinte-e-poucos eu não me envergonho mais. Rá.

E, diante de outras urgências, a história de falar de mim foi ficando de lado. Com mestrado e trabalho, tudo que eu queria era dormir no tempo vago. Mas o fato é que na verdade eu não me organizava mais. Mas uma parte de mim sente falta de se ordenar e de escrever. Porque sabe que este exercício se acalma. Pode parecer bobagem ritualística, mas taí uma proposta pra 2013. Não importa se eu tenho que estudar para todos os concursos do mundo. Se eu não escrever, as coisas vão passando, a vida vai passando e a minha parte que desejava registrar-tudo-sem-parar vai perdendo o que viveu.

2012

Ai, 2012. Você foi tão difícil pra mim. Eu fui tão difícil pra você.

Eu achei que estava no controle das coisas. Que janeirofevereiromarçoabrilmaiojunhojulhoagosto e até setembro fossem durar mais. E eles não duraram menos. Eu durei menos. Fiz tão menos coisas. A gente precisa culpar coisas e pessoas. Mas não há culpados. A culpa está em mim e me paralisa. Há tanto tempo.

E quando tudo parece muito pior, eis que eu resolvo me levantar e me propor. As coisas acontecem de um jeito muito engraçado. Tudo anda tão pesado, tão pressionado, tão turvo. E eu dando jeito de andar no meio disso tudo agora, só agora.

Atenção ao dobrar uma esquina
Uma alegria, atenção menina
Você vem, quantos anos você tem?
Atenção, precisa ter olhos firmes
Pra este sol, para esta escuridão
Atenção
Tudo é perigoso
Tudo é divino maravilhoso
Atenção para o refrão
É preciso estar atento e forte
Não temos tempo de temer a morte…

À Dona Cenira

Era uma cozinha bege, escura, porque não tinha janelas. Estreita, sem jeito, mas ela se virava muito bem dentro dela. Eu era muito curiosa, e ela não tinha lá muita paciência, mas sempre me ajeitava em um banquinho, descascava uma cenoura com o miolo bem alaranjado, e eu comia enquanto brincava de ser coelho. Mas tinha que ficar muito quietinha. “A cozinha é um lugar perigoso”, dizia ela, “você pode se queimar ou se cortar, então tem que ficar sentadinha aí”. Eu obedecia, a maior parte do tempo, porque gostava de ver o que ela fazia.
Como lavava o arroz, “porque carioca faz arroz é escorrido, muito mais fácil”, e depois jogava em uma panela velha com água fervendo. Como descascava tantos, tantos legumes,  e como eu gostava de assistir a destreza de suas mãos morenas, calejadas e hábeis de tanto serviço doméstico feito na vida, pra família e pros outros. Ela sempre me contava várias das suas histórias, e eu gostava tanto de ouvi-las. Como as madrugadas que trabalhou em uma casa de família em um bairro nobre do Rio de Janeiro, fazendo petiscos pro filho do patrão, que levava os amigos pra jogar baralho durante a madrugada inteira. Eles iam acordá-la no quarto. “Mas a gente não reclamava, minha filha, porque eles avisavam sobre isso antes da gente pegar o serviço”. Ah, vó, ainda bem que as leis trabalhistas são outras! Ou da outra vez que, recém-chegada na capital, foi parar em um terreiro de candomblé, e em uma roda de trabalho, tinha que pegar uma corda e amarrar um nó pensando em alguém que não gostava. Mas ela não desgostava de ninguém! Acabou dando o nó mesmo assim. Resultado: “amarrei o anjo da guarda, minha filha!” E chorou dias a fio sem saber porque. Gostava de contar também, com orgulho, sobre como tinha se virado durante o período de pobreza, que nunca passaram fome porque ela economizava cada centavo e todo saco de comida que tinha em casa. “Certa feita”, diria ela, “o irmão de seu avô apareceu lá em casa com toda a família para almoçar. Era sempre assim, no dia do pagamento dele, ele gastava tudo, minha filha! Mandava comprar pernil, carne, frango, fazia aquele banquete. No resto do mês, não tinha o que comer, porque ganhava pouco. E eu tinha que me virar pra dar conta daquele tanto de gente, porque não podia fazer essa desfeita”. E ela falava de suas artimanhas, como, naquele dia, tinha feito um pacote de macarrão, desfiado a carne assada que antes só dava pra quatro e colocado um monte de tomate pra render a carne e fazer um monte de molho pro macarrão. Todo mundo comeu. Se refestelou! “No fim, minha filha, ele ainda olhou pra mim e disse que achava que a gente era rico!”. E a senhora gargalhava gostoso…  E eu ria junto, sem entender bem, mas gravando as histórias na memória sem perceber.

Era dali que também saíam os docinhos de aniversário. Fazer em casa, afinal, é a melhor economia que existe! “E dinheiro vale muito, minha filha!”, dizia, sabiamente. Vovó enrolava os brigadeiros e beijinhos, fritava coxinha, e assava o melhor bolo de aniversário do mundo: seu rocambole recheado com brigadeiro. Eu era uma criança obcecada. E ela reclamava porque só queria esse. Mas sempre fazia pra me agradar.

De sua frigideira saiu todo arroz com ovo e purê de batata que uma menina é capaz de comer. Porque eu não gostava de frango. Nem de peixe. E ela fazia um pratão pra compensar. “Porque você é tão magrinha, minha filha!”. E Cremogema. Suflê de legumes – que, claro, tinha outro nome. Macarrão com muito ketchup (que ela botava água pra render). Mas nunca, absolutamente, ninguém saiu com fome. Mas, com certeza, 90% saía empanturrado.

Enquanto mexia nas panelas, e conversava com as visitas, porque ela sempre tinha que passar um café, ou fazer um suco de maracujá, ou assar o pão que guardava no congelador para uma eventualidade, todo mundo se espantava quando ela dizia a idade. Ela sorria, embevecida, e dizia que é porque comia verdura e andava reta. E hoje eu penso: sem anti-age, trabalhando uma parte da vida na roça, pegando sol sem protetor. É, vó, você tá certa.

Foi naquela cozinha que a minha avó foi construída pra mim. Ali, ela era a dona do mundo, capaz de coordenar tudo com perfeição. Foi capaz de alimentar duas gerações de sua família. De comida gostosa, de histórias, de alegria, de sonhos, de amor. Apesar de nem gostar de cozinhar. E isso mostra o quanto ela se doou pra gente. Como ela é linda.

E, hoje, a despeito de parecer apagada pelo Alzheimer, pelas confusões sobre o tempo, achei que era válido lembrar de quem ela é. Pra ela. Pra nós. Porque uma grande mulher como essa é incapaz de ser esquecida.

Obrigada por ser quem você é, vó.

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