Sobre os Ipês que enchem os olhos

Lembro-me da primeira vez que os vi. Andava curiosamente pelas ruas arborizadas, conhecendo aquela nova capital.  Quando avistei o chão pintadinho de flores cor de rosa, tão delicadas,  fiquei encantada. E quando olhei pra cima, para árvore de galhos retorcidos e carregada de tantas flores, foi paixão a primeira vista.

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Desde então, eles estão em todos os lugares. Nas esquinas, colorindo as calçadas e os automóveis que se abrigam em sua sombra. Apesar de sua quantidade,  sempre me causam um sorriso quando cruzam meu caminho. Até nas horas mais improváveis.

É como ele disse:

“Gosto dos ipês de forma especial. Questão de afinidade. Alegram-se em fazer as coisas ao contrário. As outras árvores fazem o que é normal – abrem-se para o amor na primavera, quando o clima é ameno e o verão está prá chegar, com seu calor e chuvas. O ipê faz amor justo quando o inverno chega, e a sua copa florida é uma despudorada e triunfante exaltação do cio.”(…)”Corra o risco de ser considerado louco: vá visitar os ipês. E diga-lhes que eles tornam o seu mundo mais belo. Eles nem o ouvirão e não responderão. Estão muito ocupados com o tempo de amar, que é tão curto.”

(Rubem Alves)

80 dias sem chover

Brasília – DF

Tempo no Momento
Temperatura: 26ºC Condição: Alguma nebulosidade
Pressão 1022hPa Umidade: 26%
Direção do Vento: ENE Visibilidade: OK

Fonte: Climatempo.com

80 dias sem chover na capital federal. Aproximadamente 11 semanas e meia sem um pinguinho de chuva sequer, pessoas. Agora a umidade à tarde oscila entre 40 e 20%, mas isso porque ainda estamos em julho. Quando agosto chegar, bateremos a marca de 10% de umidade no ar, e será como estar no Deserto do Atacama.

Quando eu cheguei em Brasília, pra morar, já conhecia a seca daqui. Na verdade, eu tinha vindo visitar o Distrito federal no ano anterior e em pleno mês de agosto. Foi terrível, por esse lado. Eu ainda não tinha me acostumado com a idéia de que eu tinha que me entupir de hidratante pra viver, afinal de contas, eu tenho a pele seca. Mas em Salvador, cidade litorânea e de 90%, eu só precisava passar hidratante nos joelhos e nos cotovelos. Só depois de ficar com as pernas machucadas pelo atrito com a calça, os lábios rachados e os cotovelos feridos, eu entendi a mensagem. E não esqueci mais. E como eu vim estudar em abril, ainda época de chuva, acompanhei a transição do molhado para o seco e não foi assim tão traumático.

No entanto, ainda assim, é meio estranho quando a seca chega a cidade. Brasília, conhecida por seus gramados e árvores frondosas entre os prédios de concreto de Niemeyer, fica amarela. A não ser por alguns canteiros, onde o governo gasta água pra mantê-los verdinhos – e o porteiro do meu prédio também, sacaneando a minha conta de água. De resto, tudo fica amarelo e empoeirado, com o barro vermelho que me faz lembrar do sertão da Bahia. Muitas árvores, no fim do inverno, estão acizentadas ou já sem folhas. Até mesmo os Ipês, de todas as cores, começam a sumir. De azul só o céu, que falta rachar de tão azulado. Você olha pra cima e o Sol reina absoluto, sem qualquer nuvenzinha pra atrapalhar seu brilho. Ah, e o Lago Paranoá, artificial, que ninguém me convence que é azul. Tá mais pra amarronzado, coitado… Mas se não fosse por ele, vida humana nessas paragens não era possível. A única fonte de umidade da capital em tempos secos.

A paisagem muda, e os brasilienses e candangos mudam também. Todo mundo fica com um expressão meio enfezada, que só a secura pode dar. Fungando e com uma garrafinha de água do lado. E tome-lhe água. Nas conversas de elevador, só se fala da seca que esse ano tá braba, ontem o jornal disse que só vai piorar, acredita? As mocinhas tem sempre um hidratante nas mãos e até os mais machões tem que se render. E todo mundo apela pra sua entidade metafísica, pra que ela acelere a chegada da chuva. Eu mesma tenho uma dancinha própria, que funcionou no ano passado. Mas ela só vem em outubro ou novembro, quando começa a outra estação de Brasília, a chuvosa, que vai até maio ou junho. Logo nos primeiros dias, as pessoas irão começar a reclamar que chove demais e que era melhor quando estava seco. Não adianta. Ninguém nunca vai estar satisfeito.

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Enquanto a chuva não chega, o Ser Taisante está no estágio, cheia de hidratante e de água. Mas ainda com dificuldades pra respirar e me perguntando colé de mêrma de Juscelino Kubstchek. Todo mundo fala como o cara era sensacional, sabichão, visionário, mas eu tenho lá minhas dúvidas, viu. Brasília não foi uma cidade feita para humanos normais. Podia muito bem ter escolhido um lugarzinho menos árido, velho… ou pelo menos de chuva mais constante.

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Agora eu respondo os comentários na página dos comentários, e tudo graças à Cláu!