Antropóloga ou socióloga? Sócioantropóloga!

Antes de começarem a ler, relevem todas as impressões reducionistas das Ciências Sociais contidas no post. É que nos últimos tempos tenho ficado bastante prática!

No ano anterior, a menina tinha decidido que ia ser turismóloga. Prestou o vestibular da estadual e passou, mas depois achou que não queria mais. Veio o terceiro ano e ela tinha que decidir por outra coisa. E não fazia idéia do que ela queria ser quando crescer. Lembrava de quando era criança, e essa resposta ela tinha na ponta da língua, deu até entrevista. Numa voz ainda mais fina: eu vou ser cabeleireira, dentista, modelo e bancária. Pá-pum. E agora, crescida, toda aquela indecisão. Pela família, devia ser advogada ou engenheira. Mas, como boa revolucionária de trancinhas e gorro preto, sabia que era isso que ela não queria.

Chegou o São João, e lá foi ela pro pé de serra, ensaiar uns passinhos de forró e espairecer. Reencontrou alguns bons amigos e conheceu outros novos. Dentre os últimos, um antropólogo desequilibrado vindo de terras distantes. Era muito divertido o moço. Ele contou pra menina sobre tudo que estudava, sobre etnografias e grupos sociais e no fim, ela tinha os olhinhos brilhando. Achou tudo ótimo. Mamãe quase teve uma síncope. Quando chegou a época de escolher, não teve quem fizesse e ela marcou seu xis em Ciências Sociais. Achava tudo lindo e quando passou, estava em êxtase! Ela seria antropóloga! Seu sonho, embora não admitisse abertamente, era ser aquele moço vestido como o Indiana Jones que contava sobre determinado hábito exótico de algum agrupamento social perdido em qualquer lugar do mundo. E, claro, provocar aquela cara assustada nas pessoas: Sério que eles fazem isso? Que estranho!

Er… mas então. O primeiro semestre passou e ela começou a achar tudo ruim. As aulas eram péssimas, e a de Antropologia era uma das piores. Era tão ruim quanto a de política, mas ela não gostava de ciência política. Ela queria era o viés antropológico. Mas, putaquelosparió, aqueles professores toscos tinham sido escolhidos a dedo pra broxar a menina. Eu tenho certeza. Deve ter sido algum tipo de intervenção metafísica, alguma bruxa que amaldiçoou o curso dela. E ela não estava gostando. Até deixou de usar seu chapéuzinho de exploradora por um tempo.

E foi nessa época também que ela começou a sacar que não queria estudar povos indígenas, camponeses ou algum grupo social exótico. Ela queria estudar povos urbanos, o próximo. E achou que a Antropologia Urbana poderia lhe salvar. Mas quem disse que ela deu o ar da graça nas matrículas? Quando deu, ela ainda não tinha os pré-requisitos. E quando ela passou a ter, não ofereciam a disciplina. Aí ficava difícil. E seus professores antropólogos só sabiam falar dos Araweté, dos Ashaninka, dos Bororo – e ao serem perguntados, reconheciam a existência da Antropologia Urbana, mas ninguém sabia falar muito bem dela.

Enquanto isso, no mundo sociológico, as coisas andavam mais promissoras. Os professores eram melhores, de fato. E também proferiam aspectos sobre grupos que eu queria conhecer: o mundo urbano. O problema é que o método da Sociologia me parecia um pouco equivocado, às vezes, com seus dados estatísticos e entrevistas um pouco mecânicas. Embora ninguém verdadeiramente reconheça que este é o método sociológico, é tudo que a gente vê os sociólogos fazerem. Eu queria era fazer etnografia, que todo mundo dizia ser da Antropologia. E agora, José?

Foi aí que eu decidi que ia pedir a dupla habilitação: ia ser bacharel em Antropologia e em Sociologia também. Resolvia meus dois problemas. Formava em um e no outro, e pegava as coisas boas dos dois. E olha que cientista social preparada eu ia ser, hein? Massss, a verdade é que o fim do curso vai chegando e a gente vai ficando mais prática, gentem. E formar em dois bacharelados requer duas monografias. Tempo pra caramba na faculdade, onde eu já não aguentava mais ter aulas. Além do mais, precisava logo de um diploma, pra arrumar um emprego. E, amigos logo me contaram, eu podia fazer um mestrado depois na outra área e ter as duas formações. Então, deixei de ser megalomaníaca e decidi optar de novo por apenas uma área. Analisando o restrito campo de trabalho das ciências sociais, larguei as raízes e fui pra Sociologia. Aí o chapéuzinho do Indiana Jones ficou no fundo do armário de vez, porque o coelho que ia trabalhar com demarcação de terra indígena, eu mêrma não! Não que a Sociologia tenha um campo assim muito melhor, mas pelo menos estava mais perto do que eu queria fazer da vida. Além do mais, eu sempre poderia dar minhas pitadinhas de antropologia nos trabalhos. E, pra complementar e evitar o desespero completo, optei também pela licenciatura em Ciências Sociais. Na falta do que fazer, podia dar umas aulas em alguma escola de ensino médio por aí… embora eu arrepie só de pensar.

Ainda por cima, nesse meio tempo, eu comecei a cozinhar e tomar gosto pela coisa. E decidi também que queria fazer gastronomia da vida taisante. Mas, esse era um plano lá mais pra frente , porque 900 contos de mensalidade é só pra quando eu for gestora pública. E a paixão ficou lá, latente. E, por um acaso do destino, eu fui apresentada a Sociologia e a Antropologia da Alimentação. Aí, menino, a coisa engatou de vez e ficou linda! Eu me apaixonei de vez, e resolvi juntar hábitos alimentares e identidade social na monografia. E nessa área eu também poderia misturar as duas coisas, como muitos autores que analisam este aspecto da vida social. E foi assim que eu acabei indo parar na Sócioantropologia – termo que eu li no livro do Jean-Pierre Poulain, Sociologias da Alimentação, e carreguei pra mim! Mas a verdade é que meu irmão nutricionista ainda torce um pouco o nariz.

Bom, agora sou uma quase socióloga praticamente bem resolvida, que dá olhadelas interessadas para antropologia e resolveu observar gente comendo. E que reza pra conseguir um emprego depois disso.