O chefe

No dia em que eu conheci o meu chefe na entrevista de estágio, confesso que não reparei muito nele. Eu estava bastante desesperada pra conseguir aquela vaga e não reparei nos atributos físicos e comportamentais do homem. Queria era saber se eu conseguiria a vaga, porque já andava bastante cética em conseguir um emprego… Cheguei na sala arrumadinha, tentando parecer A candidata a vaga. Eu tinha que conseguir, afinal, era aparentemente a única pessoa tentando, e ainda tinha a indicação da estagiária antiga (nêga, eu nunca vou poder te agradecer o suficiente!). Lembro-me que ele me dispensou rapidamente, e a coisa foi tão breve que eu não consegui nem saber direito se tinha conseguido o estágio. Só depois que eu fui saber que sim, e pude começar a dar entrada em todos os trâmites burocráticos… Ficou só a impressão de que ele era meio seco. Poucas palavras, que ele julgava suficientes. E mais pra frente, eu ia perceber o tanto que eu discordava desse julgamento.

Então, eu consegui o meu tão sonhado estágio e comecei a ir pro trabalho todas as tardes. Decepções profissionais à parte – afinal pior do que ter um estágio é não ter um estágio, salvo casos excepcionais – eu comecei a reparar nas pessoas do meu trabalho. Preciso dizer que é um ambiente bastante diversificado, constituído de uma fauna e flora impressionante. Aliás, o serviço público como um todo merecia uma etnografia detalhada. Algum cientista social se habilita? Se eu já não tivesse meu coração conquistado… Mas, voltando, então, é uma turma que parece ter sido escolhida a dedo pra criar impressões ruins do meu primeiro emprego, mas esse não é o caso do chefe especificamente. Quer dizer, é também, mas ele não é um dos fatores mais incômodos do trabalho. O problema dele é outro – ele parece o meu pai.

É, gente. O meu chefe parece o meu pai. E eu sei lá que explicação Freud tem pra isso, e o que isso influencia na minha relação com ele. Mas o fato é que o chefe parece o meu pai. É uma semelhança física, mas também comportamental. E isso é tão estranho! Os dois são senhores de corpo avantajado, com entradas nos cabelos, e um óculos meio apertado que usam de vez em quando. Tem um apetite visivelmente atípico e também andam de maneira parecida. Fazem piadas com tudo e com todos e são inteligentes pra caramba. Embora às vezes não pareçam muito, principalmente pelo senso de humor um pouco forçado, mas os dois são sabidos, além de senhores com idades próximas. E, ainda por cima, tem conhecimentos em áreas um pouco afins: Administração e Economia (ok, especialistas dessas áreas, evitem as pedradas nessa menina boba e ingênua das ciências sociais). É pena só que o meu pai não ganhe igual ao meu chefe, que é um gestor público de modestíssimo salário.

E o mais estranho é ver a relação do meu chefe com a filha pequena dele e me identificar. É o mesmo tratamento terno que o meu pai tinha comigo quando eu era criança. E que, de vez em quando, ele ainda tem. O meu pai foi o legítimo pai babão, pelo que a minha mãe conta e o que as fotos e os vídeos mostram. Era a típica relação de pai que fica mimando a filhotinha, e que é diferente da relação que os homens tem com os filhos meninos algumas vezes. Hoje o chefe trouxe a filhinha dele no trabalho, e eu me peguei encantada olhando pros dois, tão bonitinhos, e acabei lembrando do meu pai e de coisas antigas.

Mas, então. É realmente muito estranho ter um chefe que parece o meu pai. É só menos estranho porque ele é meu chefe mais formalmente, mas na prática a sala toda manda na estagiária. Mas, sempre que eu tenho que tratar diretamente com ele, ou quando ele vem me pedir alguma coisa, eu fico sentindo um misto de ternura e estranheza por ele. O que é algo totalmente atípico da relação entre chefe e subordinado. Talvez, por ele parecer o meu pai, eu fique buscando justificativas e tentando entender o jeito sem palavras dele. Termina que eu sempre adoto uma atitude mais branda com ele, “Ah, mas é que ele é muito ocupado e coisa e tal…“, e coloco a culpa do meu estágio ser uma porcaria nas costas dos outros. Mas é muito, muito estranho…

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