A minha calça é nº 46

Prontofalei.

Dito assim, parece até um tapa na cara. Não é como dizer que eu visto 36, 38 ou até 40. Não. A minha calça é 46. Sabe como é, bunda, quadril, perna e um pouquinho da barriga. Não dá pra negar os genes da família carioca. Afinal, a primeira coisa que o meu avô viu na minha avó, segundo ele, foi a bunda. E ela anda requebrante ainda hoje, do alto dos 80 anos.

Dependendo da fôrma, pode ser 44. Mas só se for uma super fôrma, do tamanho da 46. Então, de qualquer jeito, a minha calça é 46. O ponto é que, numa sociedade que preza as magras, digamos que eu corto um dobrado pra achar calça. Sorte que o acaso colocou uma fiel escudeira do meu lado que usa 48. Assim, tenho uma companhia na empreitada de procurar calças por aí.

O que me deixa com raiva é o fato de que eu moro no mesmo país que idolatra a Mulher Melancia. Como é que eu, no país da bunda, não consigo achar uma calça que caiba a minha? Em teoria, as brasileiras são conhecidas por seu biotipo violão. Mas, quando vamos buscar roupas nas araras, o maior número é o 42 – às vezes não passa nem da panturrilha, quiçá da poupança. Apaputaquepariu!

Então, todas as vezes em que eu sei que tenho que comprar uma calça, tenho que me preparar psicologicamente antes. É bem possível que eu não ache nada que suba. Mesmo depois de procurar em 1368543546543 lojas. E se não tiver uma C&A no Shopping, é melhor nem tentar. A C&A é uma das únicas lojas que oferecem números maiores de calças, e é a loja que acaba me salvando de sair nua por aí. Mas o resto praticamente ignora os números acima do 42. A Riachuelo e a Renner, por exemplo, param na 42. Às vezes ficam só na 40 mesmo. E se você for tentar uma loja de marca, como a M. Officer ou a Sandpiper, é só pra sair com raiva. Ainda mais se tiver que lidar com vendedores. Eles querem te convencer que você usa um número menor, e te fazem perder tempo trazendo uma peça que você sabe que vai ficar pequena. E, quando trazem o número certo, fazem uma cara de pena ao ver que coube em você. ¬¬ Como é que você não se sente mal por ser gordinha? Não dá nem pra se vestir! Às vezes eu acabo comprando só pelo número mesmo, tendo que me contentar por ter uma forma que caiba e fique legal. É muito difícil a calça ser linda e caber em mim!

Pior do que isso, na minha opinião, são as poucas roupas que você encontra nos números grandes nessas lojas. São roupas feias, gente. Feias, mesmo. Algumas lojas de roupas especializadas se salvam. Mas não são muitas. E tem gente que tem coragem de dizer na minha cara que não é discriminação. Como não é? Todo mundo dizendo pra você o tempo todo: se você é gorda, filhota, se lenhou. Não tem como ficar bonita, não. Além de ser estigmatizada por estar acima do peso, vai ter que se vestir mal. É um ciclo vicioso terrível. E depois ninguém entende depressão, bulimia e anorexia.

Eu não me conformo, não. Droga de mundo unidimensional. E isso é uma reclamação que vale pelo meu quadril, pelos meus pés, meus peitos e meus cabelos! Todos fogem dos padrões! ¬¬

Anúncios